Laços do Tempo


Capítulo seis






O lugar



Era uma manhã quente que se iniciava, já haviam passado algumas semanas desde o beijo que ocorrera entre os dois jovens. A ocasião mexera intensamente com os sentimentos de Valentim, fazendo-o sonhar com momentos que jamais pensara em viver antes.

Quase em todas as noites, acordava com a cama encharcada de suor, em meio a uma respiração ofegante e batimentos cardíacos bastante acelerados. Sua cuidadora já estava preocupada com a sua saúde, por mais que os dias estivessem sendo bem quentes, as noites já eram mais frescas e boas para dormir e em quase todas as manhãs, ela tinha que trocar os lençóis e lavá-los, pois, sempre estavam muito molhados.

— O que está havendo com você, meu filho? — Iná perguntou enquanto o menino comia um pedaço de bolo de fubá, sentado à mesa da cozinha.

Ele a olhou surpreso com a pergunta. Não fazia ideia do motivo que a havia feito indagá-lo daquela forma. Entretanto, ele rapidamente repôs sua tranquilidade. Caso ela estivesse tentando arrancar seus devaneios, jamais conseguira, porque ele não deixaria transparecer nenhuma insegurança ou que ela arrancasse dele o real motivo de tantos pensamentos alheios em sua mente.

— Não entendi, Iná. Como assim, o que está havendo comigo? — ele a respondeu com um sorriso levemente irônico.

— Creio que o senhor conseguiu me entender muito bem. — ela respondeu fitando-o. — Eu lhe conheço muito bem, desde pequeno. Sei que há algo de diferente em você, que algo em você mudou. Há uma aura mais brilhante ao seu redor e uma alegria irradiante no seu olhar.

— Creio que esteja enganada, continuo o mesmo de sempre. — ele voltou a respondê-la com o mesmo sorriso.

Iná riu. — O senhor realmente pensa que nasci ontem. Acredita mesmo que me convencerá desta forma?

Valentim a olhou perplexo e riu ironicamente. — Realmente não consigo entender em que lugar você quer chegar com esta conversa…

— Chegaremos a algum lugar, quando o senhor parar de ser sonso e responder à pergunta que lhe fiz.

— Não sou capaz de responder aquilo que não consegui compreender. — o menino insistiu na desculpa novamente. De fato, ele não sabia em que sentido ela fazia aquela pergunta, todavia, era inteligente o suficiente para adivinhar em que lugar Iná queria chegar com aquela conversa.

— Tudo bem… Então, diga-me por que nos últimos dias tenho sido obrigada a trocar suas roupas de cama? Todas as manhãs acordam encharcadas…

— Ora… — o menino riu ironicamente. — Os últimos dias têm sido muito quentes, e durante a noite, tenho sentido muito calor… Apenas isso, Iná.

A cuidadora fingiu acreditar na falácia que o menino contara, ele tentou transparecer o máximo de convicção em suas palavras.

— Bom, se a senhora me permite licença, vou andar um pouco a cavalo… — ele falou levantando da cadeira e caminhando tranquilamente para fora da sala.

Iná o fitou enquanto saía da sala. Ele até poderia pensar que a conversa havia se encerrado ali, mas a cuidadora logo retornaria ao assunto. Valentim pegou em seu quarto uma bolsa de couro que também havia ganho de seu avô, colocou dentro outro calção — no mesmo modelo que usava — e com pressa caminhou até o estábulo. O menino montou em seu cavalo e bem rápido partiu em direção à mangueira.

O céu azul e limpo deixava o dia mais quente, o que seria perfeito para os planos de Valentim. Ao chegar à árvore, Theodoro já o esperava sentado em suas raízes. O rapaz sorriu ao vê-lo e ele correu para abraçá-lo com força. Os dois se beijaram rapidamente, pois, possuíam receio que alguém os visse, porém, não deixou de ser tão caloroso.

Eles montaram em seus cavalos novamente e saíram o mais rápido que puderam daquele lugar. A propriedade dos pais de Valentim era enorme, além de produzir leite, os bovinos eram usados para o corte. Ao nordeste desta, havia uma mata, até meio densa, pois, o avô de Valentim sempre fez questão de preservá-la, já que a nascente, que havia em seu interior, alimentava o rio que cortava a propriedade e o auxiliava na criação do gado.

Eles adentraram a mata e fizeram sem nenhuma pressa uma trilha já um pouco antiga que fora aberta pelo avô de Valentim, esta levava até uma cachoeira de uma queda d’água bastante alta, com diversas rochas na sua queda e uma piscina natural não muito funda.

Era uma paisagem bastante linda. A água cristalina refletia com perfeição o verde da mata, além da luz natural que deixava o lugar completamente iluminado. O menino viu um sorriso largo e lúdico abrir no rosto de Theodoro, o rapaz jamais estivera em um local tão lindo como aquele.

— Nossa… — o rapaz exclamou com um brilho radiante no olhar.

— Não... — ele sorriu. — É a primeira vez que venho a um lugar tão belo como este. Ainda mais na companhia de uma pessoa tão especial, como você é para mim....

O rosto de Valentim corou e o menino pulou nos braços de Theodoro com a intenção imensa de poder beijá-lo por completo. Desta vez, o beijo não precisou ser tão contido como o de há poucos minutos. Valentim pôde aproveitar e passear suas mãos por lugares que jamais havia tocado antes. Pela primeira vez, o menino avançou um passo ousado demais em sua vida, que sempre foi mais recatada, ele pôs sua mão dentro do short do amado e enquanto o beijava, instigava-o.

— Valentim... — Theodoro sussurrou, ainda com a testa colada ao do menino.

— O quê?! — Valentim respondeu com um sorriso safado, sem retirar a mão do short do rapaz.

— Assim você me enlouquece... — o rapaz falou completamente arrepiado.

— Mas, desde o início a intenção é esta. — o menino respondeu afastando-se dele.

Ele suavemente mordeu o lábio inferior e sorriu, fazendo Theodoro instantaneamente sorrir em resposta. O menino retirou rapidamente seu sapato e suavemente sua camisa, permanecendo com o calção que usava, com rapidez também o removeu, e apenas de cueca, ficou na frente de seu parceiro. O rapaz tentou agarrá-lo novamente, entretanto, antes que pudesse segurá-lo, o menino se jogou na água e riu de toda situação jogando água em direção ao amado.

— Vem, a água está ótima! — Valentim o chamou fazendo o gesto correspondente com a mão.

— Prefiro admirá-lo daqui.

— Ah! — exclamou. — Não seja tão chato. Juro que a água não está gelada.

— Acredito que não esteja, mas como você não me avisou onde veríamos, não trouxe outra peça de roupa para trocar depois. — ele respondeu agachando-se.

— Fácil!

— E como é tão fácil? — Theodoro o perguntou curioso.

— Entre sem roupa... — Valentim o respondeu com um sorriso.

— Creio que não será uma boa ideia...

— Então entre apenas de samba-canção, dará tempo de secar antes de você chegar a sua casa. — o menino falou aproximando-se da margem.

— Sei não...

— Não confia em mim?! — Valentim o perguntou fingindo parecer ofendido.

— É em mim que não confio. — o rapaz respondeu retirando seu sapato.

— Pode ter certeza que apenas iremos nadar.

Theodoro sorriu para o menino e balançou sua cabeça negativamente ao imaginar agarrá-lo naquela cachoeira. Com pressa retirou sua blusa e seu short, permanecendo apenas de samba-canção como Valentim havia sugerido. Rapidamente pulou na água em direção ao menino e tratou de beijá-lo novamente, apertando sua bunda em resposta ao que ele fez momentos antes.

O menino o empurrou depois de alguns instantes e voltou a nadar em direção a queda d’água. Cada vez mais, sentia-se mais completo ao estar do lado do amado. Era como se o restante do mundo inteiro sumisse e apenas restassem os dois para desfrutar de todo tempo.






O menino pulou com o susto que acabara de tomar, seu inconsciente se recordava da voz que o indagou, todavia, a resposta automática de seu corpo foi reagir como se Horácio tivesse o surpreendido. Ao virar, deparou-se com um rosto conhecido e até que mais amigável que o do pai. Ele agradeceu aos céus por ser apenas sua mãe, ela não possuía a melhor expressão no rosto, porém, ele sabia que seria menos agressiva que o pai.

— O que você faz no meu quarto? — ele a indagou de forma rude.

Antônia o olhou perplexa e seu rosto não disfarçou o sentimento de espanto que a tomou. Ela em rápidos segundos voltou a si e respirou fundo na tentativa de se recompor.

— Olha bem como fala comigo, garoto, sou sua mãe e possuo o direito de entrar e sair de qualquer cômodo desta casa na hora que eu bem entender! — ela tentou se impor sem levantar o tom de voz.

Valentim a encarou com fúria e pensou em respondê-la, contudo, guardou para si as palavras que brotaram em sua mente, deixando que apenas seu rosto proferisse alguma resposta. O silêncio predominou aquele quarto e durante os poucos minutos em que reinou os dois se encararam.

— Você ainda não me respondeu! Onde você estava, Valentim? — Antônia voltou a indaga-lo.

— Meu pai está acordado? — o menino a cortou fazendo outra pergunta.

— Não... — ela respirou fundo tentando manter seu controle emocional. — Seu pai possui um sono muito pesado, você sabe disto. Agora, responda-me. Onde você estava, Valentim?

— Você sabe a resposta. Por que a indagar? — Valentim a respondeu levantando uma das sobrancelhas em um nada sutil tom de deboche.

Antônia estremeceu de raiva, mas voltou a respirar fundo, novamente tentando manter o controle. — Você não cansa de nos desonrar, meu filho?

— Pelo que mãe? Por transar com homens? Por gostar de sentir um macho sobre meu corpo? Por… — ele a respondeu enfurecido.

Antônia não mais conseguiu segurar seus sentimentos e o esbofeteou interrompendo sua fala. O rosto de Valentim virou com a força e o peso empregado pela mão de sua mãe; no mesmo instante uma marca vermelha e acentuada, dos dedos da genitora, surgiu em sua face. Os olhos dele fecharam devido ao golpe e seu corpo estremeceu por completo.

— Você é idêntica a ele… — o menino falou ao voltar a encará-la. Ele estava de cara fechada, o ódio havia tomado seu coração naquele momento.

— Meu filho, desculpe-me… — ela falou trêmula, tentando pôr a mão no rosto dele, mas ele a empurrou.

— Por favor, saia do meu quarto. — ele apontou para porta. — Deixe-me sozinho!

— Não! — ela respirou. — Você sentará e me escutará agora.

— Não há nada que você possa falar que mude alguma coisa em mim, mãe. E o que a mais você tem a falar? Quando teve a oportunidade hoje no almoço, manteve-se em silêncio. Não há nada que você possa falar que vá modificar algo na minha vida. Então, por favor, retire-se do meu quarto, quero poder dormir em paz. — o menino voltou a respondê-la apontando para a porta.

— Seu pai e eu realmente erramos na sua criação… Talvez, na realidade, somente eu devo ter errado… — seus olhos estavam inchados. — Horácio sempre avisou que eu o mimava demais que não era daquela forma que se criava um homem, mas você sempre foi um bebezinho para mim…

O menino ficou em silêncio e apenas a observou. Teve vontade de respondê-la a altura, contudo, preferiu permanecer em silêncio. Antônia sentou na cama de cabeça baixa e com as mãos cobrindo o rosto. Parecia que a mulher estava chorando, entretanto, ela não emitia som algum.

— Já rezei tanto pela sua alma… Já pedi tanto para Deus remover esse mal que há dentro de você, querido. — ela falou após retirar a mão do rosto, olhando diretamente para os olhos dele.

— Eu não preciso que você reze por mim mãe… Eu preciso que você pare de se intrometer na minha vida, somente isso. — o menino a respondeu com lágrimas nos olhos, contudo, com o rosto ainda firme. — Então, por favor, saía do meu quarto e me deixe dormir. Estou muito cansado e gostaria de poder dormir em paz, se ainda for possível nessa casa.

Por alguns segundos, ela pensou em respondê-lo de forma agressiva ou voltar a batê-lo, mas em sua mente a imagem do doce bebê que havia posto mundo acabou surgindo e ela se viu incapaz de qualquer ato. Naquele momento, ela se sentiu completamente desarmada, apenas levantou com calma e saiu do quarto em silêncio e sem olhar para trás.

Assim que ela fechou a porta, o menino caiu de joelhos e instantaneamente começou a chorar. Chorava tanto que chegava a soluçar, seu rosto branco adquiriu uma tonalidade rubra. Iná, minutos depois, entrou no quarto e o abraçou com força na tentativa de reconfortá-lo. Mais uma vez, ele voltou a chorar em seus braços e o sentimento agonizante de dor, retornou ao seu peito. O menino sentia como se finas agulhas penetrassem seu coração com bastante rapidez.

Quando as lágrimas minguaram, a cuidadora o auxiliou a levantar, ajudou-o a retirar as vestes que usava e a pôr umas mais leves e apropriadas para dormir, por fim, auxiliou-o a caminhar até cama. O menino deitou e em silêncio a cuidadora permaneceu, ela levemente beijou a testa dele e virou-se para caminhar em direção a porta.

— Isso nunca terá fim né, Iná? — o menino a perguntou no instante que a mulher tocou a maçaneta.

— Creio que eles… Talvez, a sua mãe consiga compreender com o tempo, meu querido. — ela o respondeu voltando o olhar para ele. — Todavia, não creio que essa mudança venha acontecer do dia para noite…

— Mas… Mas, você me compreende né, Iná?

— Meu menino… — ela sorriu para ele. — Independente dos rumos que sua vida tomar, eu jamais darei as costas a você, jamais. Amar não é esquecer as diferenças, mas saber respeitá-las e não permitir que elas venham criar barreiras.

A senhora saiu do quarto e desligou a luz com calma. Caminhou com calma até a cozinha onde se serviu de um copo de água do filtro de barro que havia em cima da pia.

— Onde eu errei, Iná? — uma voz feminina indagou a cuidadora fazendo-a se assustar e deixar o copo de metal cair na pia.

— Minha nossa senhora! — Iná exclamou e deu um leve salto para trás após o susto que tomara.

— Iná, tudo bem? Eu não quis assustá-la. — a mulher falou receosa.

— Tudo bem, minha senhora, tudo bem… — ela falou virando e olhando para a mulher.

Iná jamais havia visto Antônia em tão mau estado. Porque mesmo com a cozinha pouco iluminada, pois, apenas a luz do luar que entrava pela janela, era capaz de fazê-la conseguir visualizar o semblante da mulher. Esta estava com o rosto inchado e avermelhado, o cabelo solto estava completamente desgrenhado e os olhos ainda encharcados. A cuidadora a olhou com pena, sempre via aquela mulher completamente deslumbrante e esbelta, contudo, pela primeira vez a viu no fundo do poço ou quase lá.

— Não há erro algum, minha senhora. — a cuidadora respondeu com um breve sorriso.

— Há sim, Iná! Meu filho se tornou um invertido… — a mulher voltava a chorar. — Um pecador e não sei se poderei mantê-lo conosco…

— Está pensando em expulsá-lo, senhora? — Iná perguntou a mulher assustada e surpresa.

— Eu não sei se consigo, Iná. — a mulher engoliu a seco. — Essa situação desonra nossa família… Abrigar e acolher, pode significar concordar com um pecador. O que a igreja irá pensar? O que a sociedade irá dizer quando souberem que o filho de Horácio é um invertido?

— Minha senhora, desculpe-me, mas acha que Jesus o expulsaria de casa? — ela o indagou um tanto nervosa. Olhava para a mulher nos olhos e via um misto de dor e solidão. — Não é questão de escolher entre seu filho ou sua fé… Ou pensar no que a comunidade irá julgar… Somente quem possui o direito de nos julgar é Deus e o que aquele bando de abutre, que diz viver a igreja, pensa é insignificante. Jesus não deixou que apedrejassem a adúltera e andava junto com os pecadores, porque andar com um pecador, não significa que automaticamente, você concorda com o seu pecado, mas dar a oportunidade a ele de ter um apoio a redenção. Jesus andava com os pecadores, sem apedrejá-los ou julgá-los, pois, somos feitos de carne, fadados a errar. Contudo, o nosso senhor andava conosco para nos demonstrar o caminho de Deus, o caminho da redenção. E mesmo que não viéssemos a mudar, ele jamais daria as costas para nós. — Iná terminou de respondê-la.

— E o que você pensa que devo fazer? Aceitar essa situação? Fingir que meu filho é uma pessoa normal? Que ele não está doente? Pecando… — ela a indagou com um pouco de histeria.

— A senhora apenas não precisa se envolver no assunto. Aproxime-se como uma amiga talvez, mas não como símbolo de opressão.

— Não sei se consigo…

— Bom, ou a senhora engole um pouco o orgulho, ou perderá seu filho. Se me permite, irei me recolher, mas pense bem no que conversamos. — Iná finalizou com um sorriso singelo.
A cuidadora a deixou sozinha na cozinha e foi para seus aposentos com o coração bastante apertado. Antes de dormir, ajoelhou-se na beira da cama e orou. Pediu que as dores e sofrimentos do menino, que criara como seu filho, fossem amparadas e que ele tivesse sabedoria para escolher o melhor caminho para sua vida. Naquela noite, Iná sentiu medo por ele, medo que coisas ruins pudessem vir a acontecer. Para ela, aquela família estava fadada a acabar de forma trágica, uma vez, que jamais conseguiram voltar a conviver em perfeita harmonia.

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