Laços do tempo
Capítulo cinco
Não
era a voz que Valentim esperava ouvir, todavia, ficou contente, pois, ela
trazia a segurança que o menino necessitava, sabia que podia depositar
confiança na pessoa que o recepcionava naquele momento. Demorou alguns
segundos, até que ele tivesse coragem de erguer a cabeça e olhá-lo no rosto,
mas, quando fez, não sentiu um olhar de repreensão, nojo e raiva, muito
diferente do que vinha de seu pai. Ele estendeu a mão para o menino, que a
segurou rapidamente, e o ajudou a levantar sem ainda conseguir entender o que
acontecia.
Ele
secou os olhos e limpou o rosto com a manga da blusa que usava. O homem abriu
espaço para que o menino passasse pela porta, antes de fechá-la levou o cavalo
para o quintal atrás da casa e se certificou que não havia ninguém na rua que
pudesse ver a cena e contar a Horácio o que acontecia. Ele estava completamente
receoso com toda a situação, não sabia em quais condições o seu praticamente
genro havia saído de sua morada, e as hipóteses que pairaram em sua cabeça o
deixavam aflito.
Assim
que passou pela porta, sentou no sofá e ficou esperando o homem retornar,
viajou tão intensamente em seus devaneios que não notou quando seu anfitrião
retornou e ficou parado observando-o. O homem — alto e corpulento, de
cabelos pretos e grossos, e pele morena, que o fazia lembrar a pessoa que tinha
ido procurar naquela noite — continuou o analisando por um tempo.
— O
que houve com você, meu filho? Por que tão distante de casa uma hora dessas? —
o homem falou quebrando o silêncio.
— Eu
preciso vê-lo, Sr. Meireles. — o menino falou rapidamente.
O
homem ponderou antes de respondê-lo. Várias realidades que aquele momento daria
errado passaram por sua mente, todavia, não havia muito o que fazer, nem como
impedir. O fato de Valentim estar em sua casa deixava toda a situação com
Horácio completamente instável.
—
Eh... — respirou fundo — Não creio que seja apropriado você estar aqui, meu
filho. — ele cuspiu a frase da melhor maneira que encontrou.
— Como
é? — o menino o perguntou furioso e indignado.
—
Desculpe, mas…
— O
que está acontecendo, pai? — Theodoro perguntou ao descer as escadas, vestido
apenas com uma bermuda curta e folgada. — Valentim!? — falou surpreso ao vê-lo
antes mesmo de terminar a decida.
—
Theo… — o menino falou aproximando-se, sua voz estava carregada de emoção.
Theodoro
o fitou ainda perplexo com o que estava vendo em sua frente, mas sorriu após
algum tempo e aquilo desmanchou o coração de Valentim.
— Vem
comigo… — o rapaz falou estendendo-lhe a mão.
—
Theodoro! — Meireles tentou repreendê-lo.
— Pai…
por favor. — o rapaz o respondeu com um olhar de súplica.
O
homem suspirou fundo e deu de ombros, permitindo que eles pudessem continuar
sem nenhum problema. O menino segurou a mão do rapaz apertando-a, eles seguiram
em total silêncio até o quarto de Theodoro. Depois de passarem pela porta e o
rapaz a trancá-la, Valentim pulo em seus braços aos prantos. No início, ele não
sabia o que fazer, se o empurrava ou o deixava continuar, porém, o sentimento
que dominava forte seu coração e o fazia doer, o fez optar pela segunda opção e
retribuir o gesto de carinho. Seus olhos também incharam e a emoção o consumiu.
Após
alguns instantes, ambos se soltaram um do outro e se afastaram em silêncio.
Valentim buscava coragem para poder dizer ao amado o que sentia, todavia não
conseguia encontrá-las com exatidão.
— Você
é um louco! — Theodoro falou com meio sorriso no rosto. — Mas, não devia estar
aqui, seu pai, se descobre, nos mata. — concluiu com um pouco de pesar.
— Eu
já morri… porque estar naquela casa é um inferno! Ou você pensa que é uma vida
maravilhosa ser olhado de forma repulsiva pelos seus pais. Ser olhado como o
ser mais asqueroso do mundo, como o maior pecador que já passou pela Terra. — o
menino o respondeu irritado. — Como julga que estou, Theodoro? — ele concluiu
exaltando um pouco a voz.
O
rapaz engoliu seco e desviou o olhar para o chão. Não havia o que falar, havia
errado com o menino, no momento mais crítico para ambos.
— Va…
— balbuciou, mas não conseguia concluir o raciocínio, pois, o menino ainda o
fitava com fúria.
— O
quê? — ele perguntou. — Você virou-me a cara naquele dia, Theodoro! Ajudou-o a
me matar! É sério que você vem falar sobre o que meu pai pode fazer ou deixar
de fazer neste momento?! Quero que ele se foda! — o menino berrou. — Eu quero
que você também se foda! — explodiu. — No mesmo instante que tenho vontade de
pular em seus braços e beijá-lo, eu tenho de te enforcar...
— O
que você queria que eu fizesse?! — o rapaz gritou interrompendo-o. — Meu mundo
também foi destruído naquela noite, ou você esqueceu?! — o fitou. — Seu pai
também me espancou, me torturou, também me fez sangrar e sofrer... — ele tremeu
com o turbilhão de emoções que o fazia lembrar daquele dia. — Depois que a Iná
o retirou de lá, permaneci... Seu pai voltou e continuou a me bater, eu fiquei
jogado naquele casebre um dia inteiro. — engoliu seco lembrado da tortura que sofreu.
— Sem comer, sem beber, utilizando da força que me restava para permanecer
vivo. Eu também perdi muito, Valentim, pare de achar que o mundo somente gira
em torno da sua dor, pois todos nós temos dores constantes. — sua voz quase
falhou e seus olhos estavam vermelhos e inchados.
Uma
pontada aguda surgiu no coração do menino, a resposta de Theodoro havia o desfeito
complemente. Ele aproximou-se do rapaz, que já possuía os olhos cheio d’água,
tocou seu rosto com a mão direita e limpou a lágrima que caia. Pode então
perceber as cicatrizes grossas que haviam em seu corpo, mais concentradas no
peitoral, como marcas de chicote.
—
Desculpe se não fui forte o suficiente para nós... — Theodoro falou em um quase
sussurro.
— Tudo
bem… — o menino respondeu chorando. — Eu também não fui... — ele concluiu com
um sorriso singelo.
Theodoro
fechou os olhos e deixou o corpo sentir o toque de seu pequeno em seu rosto.
Instintivamente ele o puxou para mais perto, cheirou seu pescoço e relembrou o
doce olor de seu perfume, que enchia seu corpo de tesão e desejo. Beijou-o
intensamente, o apertando contra seu corpo, passeando a mão pelo dele. O
menino, pego de surpresa, demorou alguns segundos para conseguir assimilar o
que ocorria, mas cedeu as vontades e instintos, beijou-o de volta, acariciando
a cabeça do amado ao mesmo tempo, que acariciava seu peito e barriga.
O
rapaz o pegou no colo, puxando suas pernas para que envolvessem sua cintura, e
o empurrou contra parede mordiscando seu pescoço; ele suspirou fundo e relaxou
completamente o corpo nos seus braços.
Theodoro
o olhou nos olhos ainda o segurando no colo.
—
Amo-te. — ele falou com um sorriso.
O
menino abriu um largo sorriso, o beijou delicadamente.
—
Amo-te mais… — falou com rosto corado.
Ainda
com o menino no colo, ele o guiou até a cama e o deitou tranquilamente,
tentando manter sempre o contato visual. Ao sentir seu corpo ser abraçado pelo
colchão, Valentim o deixou relaxar por completo, fechando os olhos e se
entregando completamente a toda situação. Sentiu o companheiro beijar
suavemente seu pescoço; o toque de seus lábios, fez seu corpo inteiro se
arrepiar, e soltar um leve e baixo gemido. Aquele grunhido soou para Theodoro
como a música mais perfeita de todo o mundo, fazendo sorrir e entender que se
tratava de um sinal verde para continuar e fazer o que pretendia.
Levantou
um pouco da blusa do seu parceiro e começou a beijar sua barriga, dando sempre leves
mordidas. Novamente o gemido veio para o seu deleite, entretanto, desta vez
soou por todo o quarto, envolvendo em uma intensidade de sensações e desejos
fortes. Quando percebeu, as mãos de Valentim foram parar rapidamente em sua
cabeça e ele a alisava com mesmo nível do fluxo de prazer que os envolvia.
Conforme descia a boca pelo seu corpo, o menino saltava da cama com os espasmos
e as descargas elétricas que sofria, devido ao tesão gerado pelo seu toque
suave.
Rapidamente,
tratou de retirar a roupa toda do menino e virá-lo de costas para si; voltou a
passear seus lábios por todo o corpo do amante e a apertá-lo em lugares
estratégicos, fazendo sua mão caminhar por todo aquele torso, tocando-o em
todos os níveis do prazer. O que o faz apertar e morder o travesseiro, de forma
que seus gemidos não ecoassem por toda a casa. O calor dos corpos começou a
esquentar o ambiente, fazendo-o retirar a bermuda folgada que usava. Deitou
sobre ele, voltando a beijar e morder seu pescoço. Quando a temperatura de
ambos se igualou, ele os uniu, fazendo-o urrar e o menino morder o travesseiro
com mais força.
A
sincronia e o movimento do ato foram muito intensos. O rapaz o virou para si e
aumentou a velocidade e a intensidade, olhando-o nos olhos, segurando-o com bastante
rigidez, com a mão esquerda em seu pescoço e a direita em sua cintura. Após um
tempo, o ápice veio para os dois, que já pingavam devido a todo o calor gerado.
Quando acabou, ambos se olharam mais uma vez e sorriam um para o outro, ainda
bastante ofegantes.
— Eu
quero você para sempre. — o menino falou ainda com um sorriso.
— Nós
seremos um do outro para sempre, meu lindo, independente de quanto tempo leve
para estarmos juntos. — Theodoro o respondeu acariciando seu rosto.
— ‘Vamos fugir deste lugar, amor, para outro lugar, onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu’.
Vamos embora de tudo isso. — Valentim falou subindo em seu colo.
— É o
que eu mais quero, mas seu pai nos caçaria por todo o mundo. Não dá para viver
o resto da vida fugindo....
— E o
que vamos fazer? Viver longe um do outro? Viver nas sombras? Arrumando formar
de nos vermos escondidos? — o menino falou um tanto furioso levantando.
—
Infelizmente... — o rapaz falou com pesar levantando e o abraçando. — Mas, é
por ora, não para sempre. Vamos encontrar um jeito mesmo que demore uma vida
inteira. — concluiu com um sorriso um tanto singelo.
—
Somente temos uma única vida para desfrutar um do outro...
— Não
nós, não o nosso amor. Nós somos para além das vidas, pois, nós ‘temos o nosso próprio tempo’. — ele
falou olhando-o nos olhos e o beijando delicadamente.
O
menino soltou-se do beijo e começou a chorar e no mesmo instante, Theodoro
secou suas lágrimas e o abraçou com força. Tentando transferir o máximo de
segurança que alcançava naquele momento, mas não sabia se era o suficiente, não
conseguia mais pensar em coisas boas que pudesse falar e garantir dias
melhores. Pegaram suas roupas em silêncio e caminharam juntos em direção ao
banheiro, sem sequer trocar olhares, se lavaram e se vestiram novamente. Por um
breve espaço de tempo, Valentim teve a perfeição que sempre sonhara com
Theodoro, mas a realidade não era igual aos seus livros, e devido a isto, ele
duvidava se um dia teriam um final feliz, como o rapaz projetava.
Não
demorou muito tempo para que Valentim fosse embora, o rapaz o acompanhou até os
fundos da casa, lá o beijou novamente, um beijo menos quente do que os
anteriores, contudo, com a mesma carga sentimental. Ele o ajudou a montar no
cavalo e somente com um sorriso, se despediram e o rapaz o observou sumir em
meio as ruas frias e à meia-luz da cidade maravilhosa.
Durante
todo o percurso até sua casa, relembrou de todo o incrível momento que passaram
juntos, como se um filme rodasse em sua mente. Ao chegar, levou o equino de
volta ao estábulo e entrou sem fazer qualquer ruído. Tudo já estava um completo
breu, provavelmente seus pais já estavam no décimo terceiro sono e, como não se
importavam mais com ele, jamais teriam ido ao seu quarto; foi o que pensou. Em
total silêncio adentrou o cômodo, andando na ponta dos pés, tentando ser invisível
como um fantasma, entretanto, há sempre alguém para ver.
— Onde
você estava, Valentim?
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