Laços do tempo
Capítulo quatro
Descoberta
Valentim
não havia conseguido dormir bem naquela noite. Rolava de um lado para o outro na
cama sem conseguir adormecer. Em sua mente ficava se repetindo a cena que havia
acontecido um pouco mais cedo. “Seria uma intimação ou um convite?” O menino
ficou pensando. Somente sabia que no dia seguinte iria à cidade e isso o
inquietava. Há tempos que não fazia isso, na verdade, pouco se lembrava qual
tinha sido sua a última vez que esteve naquele lugar, talvez, tivesse uns sete
anos ou até menos. Tantos pensamentos em sua mente o fez adormecer em um piscar
e quando retornou a abrir os olhos, o dia já havia amanhecido.
O
menino se aprontou o mais rápido que pode e saiu do quarto tão rápido quanto um
cavalo de corrida. Ainda sem os pais sentados à mesa, tratou de engolir
rapidamente a comida e sair antes que eles chegassem e pudessem prendê-lo com
qualquer conversa monótona ou irritante. Com o seu cavalo, foi até a árvore, e
em suas raízes, sentou à espera do rapaz. Eles haviam marcado à tarde, mas a
ansiedade o inquietava. Naquele momento, enquanto tentava ler um romance, sua
mente se dispersava e o fazia lembrar de Theodoro, percebeu que não sabia qual
era o seu nome e as milhões de possibilidades o fez viajar em devaneios e não
perceber o tempo passar.
A
tarde chegou e trouxe consigo o rapaz de seus pensamentos, este apenas sorriu
ao vê-lo esperando-o. O menino devolveu o sorriso com um rosto corado, um
sentimento feliz havia o preenchido.
—
Pensei que não viesse. — o rapaz falou sentando ao seu lado.
—
Por quê? — o menino perguntou confuso.
—
Você não teve expressão quando fiz o convite, mas, mesmo pensando que ficaria
aqui sozinho, resolvi vir. Não seria a primeira vez a fazer papel de tolo na
espera de alguém. — ele sorriu.
Valentim
ficou sem ter o que dizer, imaginou que ele já tivera outros amores e outras
histórias ao longo de sua vida, diferente dele que somente havia conhecido
através dos romances e poemas que amava devorar. Theodoro levantou e estendeu a
mão para o menino, que suavemente a tocou, com um único puxão ele o ergueu. Com
a força empreendida, ele acabou sendo atraído ao encontro do seu corpo, como em
um abraço íntimo.
O
mundo ao redor pareceu congelar naquele momento e um grande calor no peito
ambos começaram a sentir. Valentim estendeu o rosto ao encontro do rapaz, que
pela segunda vez teve o prazer de admirar aquelas pedras azuis que cintilavam
com os raios solares; o que o fez sorrir. O rosto dele corou ao admirar o
sorriso que havia roubado sua tranquilidade e o retirado na inércia que era sua
vida. Theodoro se afastou delicadamente e segurou sua mão e o puxou até os
cavalos que ficam amarrados em um pequeno pedaço de cerca que havia no local.
De imediato ele montou no cavalo, mas o menino afastara-se alguns passos.
—
Não sei se devo… Nem sei qual é o seu nome. — o menino falou apreensivo.
—
Não seja por isso, me chamo Theodoro e é um prazer imenso conhecê-lo. — o rapaz
falou com um sorriso.
Ele
ponderou se devia fazer aquilo, olhou para o seu cavalo e para a árvore que
balançava um pouco. Ao retornar os olhos para o rapaz o viu sorrir novamente,
seu corpo se encheu de coragem e sem pensar montou no cavalo e com ele seguiu.
Ambos cavalgaram por cerca de uma hora até chegarem a cidade. Os olhos do
menino brilharam com toda a loucura que era a cidade maravilhosa, com as
pessoas circulando com certa rapidez de um lado para o outro; tomou um susto ao
ver o bonde passar com tantos pendurados em seus balaústres para não caírem.
—
Meu Deus! — Valentim falou tonto com tanta informação que colhia com os lugares.
Theodoro
sorriu ao vê-lo maravilhado com tudo aquilo. — Venha por aqui. — ele falou
guiando o menino por aquele mundo novo.
Eles
cavalgaram por alguns minutos até a entrada de um prédio de dois andares, a
porta dupla, verde e centralizada, contrastava com a cor de palha da parede. No
centro do segundo andar havia uma minúscula sacada com o guarda-corpo em
alvenaria, aos lados dois janelões verdes, que acompanhavam toda a marcenaria.
Os garotos amarraram os cavalos nas grades de ferro que dividiam o terreno da
rua. Theodoro começou a subir as escadas que davam acesso ao primeiro andar,
quando ia chegando ao topo notou que Valentim não o acompanhava, ao olhar para
trás o viu parado no portão.
—
Tudo bem? — perguntou descendo os degraus.
—
Essa é a sua casa? — o menino perguntou ainda vislumbrado com tudo.
O
rapaz riu, e voltou a olhar para o prédio. — Não, mas é como se fosse. Venha! —
completou com um sorriso, estendendo a mão em direção a ele.
Valentim
olhou primeiro para sua mão depois voltou a olhar para o sorriso, sem pensar
muito a segurou e caminhou com ele até o interior do prédio. Ao entrar,
assustou-se. O primeiro salão era bem amplo, o chão possuía um carpete vermelho
já um pouco surrado, na lateral um grande balcão de madeira e a frente uma porta
dupla da mesma matéria-prima.
—
Que lugar é este? — Valentim perguntou maravilhado com todo o lugar.
—
Um teatro antigo... — Theodoro respondeu com um sorriso. — Nunca veio a um
teatro?
—
Não. — o menino respondeu com um pouco de pesar na fala. — Pelo menos, não me
lembro de já ter vindo a um lugar como este.
—
Então, bem-vindo ao melhor lugar da Terra, onde a ficção dos teus livros se
torna realidade. — o rapaz falou afastando-se um pouco dele e abrindo ambos os
braços.
Valentim
sorriu e caminhou para mais perto dele. O rapaz novamente segurou em sua mão e
caminhou com ele até a outra porta. Ao passar por ela, tomou mais um choque.
Pela primeira vez ele via uma sala de teatro em sua frente, uma coisa que
somente havia conhecido através dos livros e gravuras tragas pelo seu
professor. Conseguiu imaginar diversas obras de Shakespeare sendo encenadas
naquele palco que o deixou deslumbrado.
Outra
surpresa que teve, ao passar pela porta, foi as demais pessoas que haviam
naquele lugar. O menino, ao perceber as novas companhias, ficou paralisado.
Valentim não sabia lidar com pessoas desconhecidas, pois, ao longo de sua vida
poucas vezes teve que fazer isto. Haviam ali mais duas meninas e outro rapaz.
Elas eram irmãs gêmeas, e isso o chocou, a pele negra e reluzente delas trazia
sedução ao olhar; o cabelo crespo, castanho, cheio e volumoso, amarrado a um
turbante belíssimo, era completamente novo aos seus olhos; tudo combinado a
curvas tão belas quanto a de um violão. O outro rapaz era mais alto e
corpulento que Theodoro; os cabelos ruivos lembravam uma moeda de cobre
novíssima; o rosto repleto de sardas escondia os olhos que remetiam uma
folhagem que começava a secar. Eles sorriram para o menino que ainda se
mantinha estático.
—
Acreditei que fosse demorar uma eternidade para chegar. — uma das meninas falou
aproximando-se deles. Ao ficar de frente a Valentim sorriu para ele. — E você
chuchu, quem é?
—
Eh... Eh... — o menino respondeu envergonhado.
—
Então Eh, de que lugar desse mundão você surgiu? Porque, nunca vi sua cara
antes. — a garota o indagou falando rapidamente.
Valentim
continuava estagnado.
—
Deixe-o respirar, Leopoldina! Ele já está ficando igual a uma beterraba. — a
outra garota repreendeu a irmã, aproximando-se lentamente. — Olá! Chamo-me
Penha.
O
menino respirou e se concentrou nas palavras, todavia antes de respondê-la, foi
interrompido por Theodoro que matou a curiosidade dos amigos, antes que visse-o
ter um colapso por causa de tanta timidez.
— Este é o Valentim, pessoal. Meu novo
amigo, trouxe-o para conhecer vocês, ele é uma boa pessoa, mas um tanto tímido,
precisamos consertar isso. — o rapaz falou passando o braço esquerdo pelo
pescoço do menino.
— Ah com certeza! — Leopoldina falou
aproximando-se do rosto dele, que instintivamente recuou um pouco. — Neste
grupo não há vez para timidez. — falou batendo palmas. — Até rimou. — concluiu
com um sorriso.
Valentim riu.
— Completamente louca. — Penha falou com um
olhar de repreensão para irmã.
— Claro e evidente. — o outro rapaz pontuou.
— Querido, bem-vindo a um lugar
completamente nosso, onde podemos ser nós mesmo sem nos preocuparmos com os
julgamentos alheios. Não temos o hábito de receber visitas, na verdade, nunca
recebemos, contudo, se o Theo trouxe você, há algum motivo muito especial. Né?
— Leopoldina fitou o rapaz.
— Sentem-se todos e preparem-se, pois, o
mais incrível concerto de suas vidas está prestes a começar. — Theodoro
respondeu com um sorriso grande estampado no rosto.
— Leonino… — Penha falou olhando-o sério.
Os quatro sentaram na primeira fileira das
poltronas e aguardaram alguns minutos até que Theodoro voltasse. O menino
encontrava-se inquieto e nervoso, não conhecia aquelas pessoas novas, também
não conhecia bastante o rapaz que o havia trago até aquele lugar, mas sentia que
nele podia confiar. Alguns minutos depois, ele retornou com um banco e um
violão e o quarteto o olhou intrigado, todavia, manteve-se em silêncio.
— Bom, essa música que cantarei, a escrevi
ontem na madrugada... — ele começou a falar olhando nos olhos de Valentim. —
Minha mente parecia funcionar na velocidade de um alazão e não consegui pregar
os olhos até sentir que toda a música já estava finalizada. Não sei se está
boa, mas expressa algo que sentia muito forte naquele momento. — falou um pouco
nervoso. — O nome dela é “Roubar-te” — ele concluiu ajeitando o violão em seu
colo.
Um pequeno silêncio predominou antes que o
rapaz iniciasse a canção, ele respirou fundo e deixou os acordes iniciais
dominarem seu corpo e alma, então cantou, a voz grave ecoou por toda sala:
Ao
olhar os seus olhos
Embarco
em uma imensidão
Meu
peito transborda sentimentos
E meu
corpo se enche de tesão
Quero
saber como é te beijar
Quero
sentir o calor do teu corpo
Amor,
eu tenho que a todo tempo me segurar
Porque
a todo momento penso em te agarrar
E a
sua roupa rasgar
Quero
roubá-lo do seu mundinho
Quero
mostrar-te os prazeres da vida
Quero
roubá-lo do seu mundinho
Ah,
Amor, você é minha sina
Quero
saber como é te beijar
Quero
sentir o calor do teu corpo
A
noite toda fiquei a te imaginar
Em
cima do meu corpo a dançar
Quero
roubá-lo do seu mundinho
Quero
mostrar-te os prazeres da vida
Quero
saber como é te beijar
Quero
contigo a noite toda transar
Oh,
amor, Quero roubá-lo do seu mundinho
Quero
mostrar-te os prazeres da vida
Quero
saber como é te beijar
Quero
contigo a noite toda transar
Quero
contigo a noite toda transar
Quando a música terminou, os amigos do rapaz
o aplaudiram, mas Valentim o encarou surpreso com toda a situação. Theodoro
desceu do palco, lentamente e caminhou em direção aos quatro com um sorriso que
preenchia todo seu rosto.
— O que acharam? — o rapaz perguntou ao se
aproximar.
— Incrível.... — Leopoldina falou com os
olhos fixos no rapaz.
— Pervertido! — Penha o respondeu com
desdém.
— Egocêntrico, contudo, muito bom. — o outro
rapaz falava com bastante animação. — Já quero usar com as...
— “Com as” o que, Rodolfo? — Penha o
interrompeu com um olhar sério para o outro rapaz. Eles possuíam um relacionado
meio estável.
— Nada meu amor, nada. — ele respondeu
nervoso.
— E o que você achou? — Theodoro perguntou
diretamente para Valentim que até aquele momento ainda se mantinha em silêncio.
— Profundo. Gostei... — o menino o respondeu
com um sorriso.
Os cinco passaram a tarde naquele lugar,
contudo, quando a noite chegava cada um foi tomando seu rumo. Os dois seguiram
caminho até a casa de Theodoro, um sobrado não muito longe do teatro. O lugar
possuía um aspecto aconchegante e quente, não era tão iluminada ou grande como
sua casa, mas se sentiu acolhido. O rapaz segurou a mão de Valentim e o guiou
pela residência, levou-o para seu quarto e depois de deixá-lo passar, fechou a
porta sutilmente. O menino observou todos os detalhes daquele cômodo, era tão
diferente do seu que até pareceu melhor.
— Realmente gostou da música? — O rapaz
perguntou após deixa-lo espiar tudo, como uma criança que descobria o mundo.
Valentim virou em sua direção e sorriu. —
Sim! É muito boa...
Pela primeira vez, o menino viu o rosto do
rapaz corar. — Que bom que gostou, pois a compus pensando em você. — concluiu
mordiscando a boca.
— Eh... — o menino balbuciou, não conseguia
encontrar as palavras certas para respondê-lo.
Theodoro aproximou-se dele. — Depois da
nossa tarde ontem, foi muito difícil pregar os olhos a noite. — falou segurando
sua cintura e o puxando para mais perto. A respiração de Valentim começou a
ficar mais ofegante, devido o contato físico tão íntimo. — Desde o dia que te
vi naquela cozinha sou louco para beijá-lo, mas era tão difícil chegar a
você... — ele segurou o queixo do menino, que havia levado o olhar para o chão,
e o levantou. — Quando o vi cavalgar pela propriedade, eu tive que ir atrás de
você, meu pai estava em uma reunião fechada com o seu, era a oportunidade certa
para me chegar. Para poder rever esse azul tão lindo... Agora finalmente posso
tê-lo. — o rapaz concluiu, lentamente aproximou-se do rosto dele e o beijou.
∞
Valentim
havia se mantido concentrado até chegar à cidade, entretanto, não conseguiu
reprimir seus sentimentos. Quando chegou ao centro e passou pelo teatro que
meses antes havia visitado com o amado, começou a chorar. Os olhos ardiam intensamente,
porém, mesmo aos prantos, cavalgou em direção a casa de Theodoro cada vez mais
rápido. Ao chegar, desceu do animal com tamanha pressa que quase se desequilibrou.
Correu até a porta e começou a esmurrá-la e a gritar o nome do rapaz, até que suas
pernas não aguentaram mais seu peso e a quantidade de carga emocional que ele carregava,
que perderam a força, fazendo-o despencar. De joelho o menino chorou, pelo tempo
que pareceu ser uma eternidade, até que a porta enfim fosse aberta.
— Valentim...
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