Laços do tempo


Capítulo três




O menino já não possuía mais ideia de quantos dias haviam passado desde o melhor e pior dia de sua vida. A dor física já havia minguado completamente e faltava muito pouco para os hematomas desaparecerem totalmente, contudo, a vontade de voltar a ver o mundo diminuía cada vez mais. Não havia sentido sair para um mundo no qual não poderia estar com o seu amado, que nunca mais poderia vê-lo. Ele estava determinado a ficar naquele quarto desejando a todo momento morrer, para não mais viver aquele terrível castigo.
Entretanto, uma manhã diferente das outras se iniciou. Iná havia ido ao seu quarto bem cedo, deixou seu café da manhã, no criado mudo ao lado da cama, e saiu sem fazer qualquer barulho. Já fazia alguns dias que ela não falava mais com Valentim. Ele acordou no mesmo horário de sempre, arrastou-se até o banheiro e sem nenhuma vontade tomou banho; ao sair, notou a comida deixada pela cuidadora e a comeu aos poucos, pois, sabia que se não se alimentasse minimamente, ela o faria se alimentar a força.
Valentim sentou na cama ao lado do móvel e ficou observando a porta por alguns instantes, percebeu que havia um falatório próximo ao seu quarto, duas pessoas gritavam bastante nervosas, as vozes eram familiares, no entanto, não conseguia identificar as vozes.
Ele levantou com calma e lentamente caminhou até a porta, ao tocar a maçaneta fria, pensou se deveria sair, olhou para cama e depois para o objeto que tinha em sua mão e o girou levemente. A porta soltou-se do batente com a mesma leveza de que foi aberta. Ao abri-la, a luz rapidamente tocou seu rosto e o cegou por alguns segundos; quando voltou a abrir os olhos, o menino caminhou com calma em direção a cozinha e se deparou com Iná discutindo com seu professor preferido. O rosto do sênior estava vermelho de fúria e ela, que estava e costas para a entrada, mantinha suas mãos na cintura sem se sentir intimidada por aquele homem bem mais alto.
— Saia Iná! — ele gritava. — Entrarei naquele quarto, nem que seja arrombando a porta, para poder saber o que está acontecendo com ele.
— Já o mandei ir embora! Ninguém entrará naquele quarto. — ela o respondeu sem exaltar a voz, apontando para a porta de saída. — Já disse que ele está muito doente, quando estiver me…
— Eu não estou doente! — Valentim falou interrompendo-a.
Os dois viraram, olharam surpresos para a porta.
— Valentim?! — ambos falaram juntos com os olhos esbugalhados.
— Querido, o que você está fazendo aqui fora?! — Iná perguntou ainda confusa. 
O menino a olhou nos olhos e buscou as palavras certas que definissem o que real sentia naquele momento, contudo, se viu impossibilitado. Ele havia saído do quarto, primeiramente pela curiosidade de saber que algazarra era aquela que ouvia, mas também porque já se sentia pronto para deixar o casulo. Diante do silêncio, a cuidadora se aproximou dele e o abraçou com calma e amor. Ele retribuiu o afeto, mas nunca mais foi da mesma forma que antes e a cuidadora sentiu isso. 
— Como o senhor está? — o sênior o perguntou com um sorriso singelo no rosto. 
— Bem... — ele respondeu desviando o olhar para o chão. — Já podemos voltar com as nossas aulas. 
O sênior não sentiu muita firmeza na resposta do menino. Por mais que Valentim se sentisse bem e pronto para enfrentar o mundo novamente, haviam cicatrizes em seu interior que jamais sairiam. 
— Perfeito! — o sênior respondeu com um sorriso amarelo no rosto.
Iná olhou para o menino com orgulho, o amor que sentia por ele era maior que qualquer escolha que ele viesse a fazer, qualquer erro que ele viesse a cometer. Ele abriu espaço para o sênior e ambos caminharam em direção a sala usada para ministrar as aulas. A cuidadora no mesmo instante, cuidou de enviar o capataz para informar aos demais professores que o menino já estava curado e pronto para o retorno às aulas. 
Valentim observava atentamente a aula, percebeu o quanto aquilo o fez falta, como ouvi-lo e vê-lo lecionar, o fazia bem. A manhã pareceu ter voado tão rápido que quando a tarde chegou, o menino nem acreditou. Despediu-se do professor e correu para a sala de jantar, não lembrava da última vez que havia sentido a fome que sentia. 
Quando se sentou à mesa para o almoço, seus pais se assustaram ao vê-lo. A mãe o olhou boquiaberta, não conseguia acreditar no que via é apenas virou o rosto para ele. Fazia algum tempo que ele não via os olhos de quem herdara; observou bem a pele branca que brilhava com a luz natural, oriunda da enorme janela que havia na sala se jantar, e contrastava com o cabelo preto como um carvão. O pai o olhou enojado, o semblante ficou instantaneamente fechado, mas diferente da mãe, ele continuou o encarando. O menino pensou em voltar para o quarto e trancar-se novamente, porém, quando os olhos pensaram em lacrimejar, ele ergueu a cabeça e os enfrentou com o olhar. 
— Boa tarde... — falou timidamente. Sua voz quase não soou de tão baixo que ele falou, entretanto, foi de volume suficiente para seus pais escutarem. 
O pai ainda o observava sem esboçar qualquer sentimento, mas a mãe, que havia virado o rosto, voltou a olhá-lo. Valentim sentou à mesa sem esperar que eles viessem a responder e começou timidamente a se servir. Horácio continuou a encará-lo sem tocar na comida e Antônia (a mãe) voltava a desviar o olhar ao virar o rosto e acariciar o crucifixo que havia em seu pulso. 
— Você possui uma coragem incrível. — Horácio falou ao observá-lo comer.
O menino engoliu e virou o olhar para o pai; passou por sua cabeça, diversas coisas que gostaria de falar, mas se manteve em silêncio.
— Horácio... — Antônia sussurrou ao retirar a mão do crucifixo e colocá-la sob a mão direita do marido.
— É uma realidade, minha querida. — Horácio falou olhando-a nos olhos e observando o mesmo azul intenso que havia nos olhos do filho. — Porque ou ele debocha da nossa cara ou é ingênuo demais para não se manter trancado naquele quarto. — completou de forma grosseira elevando o tom de voz.
Valentim repousou o talher no prato, após ouvir o que o pai havia falado; outra vez algumas frases passaram por sua cabeça, mas diferente de anteriormente, ele não conseguiu se manter em silêncio.
— Não há motivo nenhum para ficar trancado no meu quarto... — o menino falou aumentando e modificando o tom de voz; já estava mais confiante e não voltaria a baixar a cabeça para o pai.
Horácio voltou a olhar para o menino e o fitou.
— Não se faça de ingênuo... Porque eu pouco acredito na segunda opção. — o homem falou rispidamente olhando-o nos olhos.
— Horácio... — Antônia falou em um tom de advertência, contudo, o marido e filho não a escutaram.
— Você acredita no que quiser, pai. Eu apenas sou sincero com que sinto e não me arrependo. — falou em resposta, pela primeira vez o menino havia tomado coragem e batido de frente com o pai.
— Realmente debocha da nossa cara. — Horácio o respondeu com o semblante serrado. — Você me dá nojo! — cuspiu as palavras olhando-o de cima a baixo.
— Horácio! — Antônia gritou em um tom de advertência, contudo, novamente, o marido e filho não a escutaram.
Os olhos do menino lacrimejaram um pouco, mas ele não cedeu as emoções naquele momento, não se permitiu chorar na frente dos pais e demonstrar fraqueza. Ele se levantou e começou a andar lentamente em direção a porta, a todo momento segurando o máximo para não ceder aos seus sentimentos.
— Onde você vai? — o pai perguntou irritado no momento que o menino passou pelo portal. 
Valentim respirou fundo e virou para o pai. — Para meu quarto, não é o que você queria? — o menino perguntou com certo tom de ironia.
Horácio riu sarcasticamente. — Eu queria tê-lo matado! Mais honroso ver um filho morto a um filho viado. 
— Pois é... — ele respirou. — Devia ter matado. — concluiu olhando-o nos olhos e logo após encarando a mãe que continuava a desviar o olhar.
O menino saiu da sala de jantar e caminhou para o quarto em silêncio, assim que passou pelo portal e saiu do campo de visão do seu pai, o menino correu até o quarto e, sem fazer barulho, fechou a porta. Neste momento, o mundo pareceu desabar sobre sua cabeça, ele correu até a cama, jogou-se sob ela, cobriu a cabeça com o cobertor e chorou, despejou toda a intensidade de sentimentos que havia em seu coração. Estava tão preso em suas emoções que não percebeu quando Iná entrou no quarto, somente notou a presença da cuidadora, no instante que ela sentou ao seu lado e acariciou sua cabeça. 
Ele se descobriu e a olhou assustado, ela apenas sorriu. Valentim a abraçou com força e em seu colo chorou, ela permitiu que ele chorasse o tempo que fosse necessário e se segurou para não o acompanhar. Quando conseguiu se recompor, o menino a olhou nos olhos com medo de seu julgamento, mas a cuidadora acariciou seu rosto em sinal de afeto, trazendo ternura no olhar. 
— Você não tem nojo de mim como eles? — Valentim balbuciou com a voz ainda trêmula devido ao choro. 
— Não! — a cuidadora respondeu espantada. — Claro que não, meu amor.
— Eu não... não... — ele tremia e não conseguia completar a frase. 
— Meu querido, o que eu sinto por você vai muito além do que possa ser certo ou errado, do que você fez ou deixou de fazer, de qualquer acerto ou erro que tenha cometido. — ela respondeu olhando-o nos olhos e limpando as lágrimas que por eles escorriam.
— Por que eu sou assim, Iná? 
— Assim como, meu querido? Perfeito?
— Como um ser cheio de erros como eu, pode ser perfeito?  Sou defeituoso! — o menino falou desviando o olhar para o chão. 
A cuidadora levantou o rosto dele e sorriu. — Meu amor, os defeitos só existem para aqueles que não conseguem contemplar o diferente. Porque erros... Erros qualquer um comete, porque eles são inevitáveis... E quando acontecem, devemos aceitá-los, aprender a lidar com eles e tentar, porque pode ser difícil, não voltar a cometê-los.
Valentim a olhou ainda triste e encontrou no olhar dela o carinho de que tanto necessitava, ela o abraçou com força e beijou sua cabeça de forma doce, passando segurança a ele. A cuidadora não demorou a deixar o quarto, mas antes de sair abriu as cortinas e janelas, devolvendo a luz solar ao ambiente que aos poucos havia perdido esse elemento. O menino repousou a cabeça em seu travesseiro e enquanto se acalmava, observava a luz voltar a entrar. 

A mangueira

Era uma manhã um tanto diferente, o sol parecia mais frio que o habitual e o fato de não ter aula, fazia o dia parecer único entre os demais. O menino havia acordado bem cedo, feito seu dejejum rapidamente e saído com um livro nas costas. Correu até o estábulo e, quase voando, saiu com o cavalo. Em pouco tempo, chegou a uma mangueira solitária que havia no terreno da fazenda (seu avô havia a plantado quando muito jovem) em meio a relva, aquele monumento se destacava, ainda mais que as flores amareladas começavam a surgir, ele sentou entre suas raízes e começou a ler o livro de poesias, do escritor Machado de Assis, que havia trago consigo.
Estava tão inerte aos poemas que não percebeu quando o rapaz chegou e de longe ficou por algum tempo o observando. Até que tomou coragem e o interrompeu com a mesma literatura que o prendia. 
— “Teus olhos são meus livros.” — falou em um tom não muito alto e um pouco tímido, mas o suficiente para atrair a atenção do menino que o olhou confuso e assustado. — “Que livro há aí melhor,”. 
— “Em que melhor se leia | A página do amor?” — o menino respondeu continuando a estrofe de um dos seus poemas favoritos do tão admirado escritor.
Valentim fechou com calma o livro e o olhou com bastante surpresa. Seus olhos pareciam mais azuis naquele dia, tão azuis quanto o céu, que naquela manhã estava completamente limpo. Outra vez, Theodoro havia se perdido naquelas joias que o menino carregava no rosto, voltando a consciência quando o ouviu singelamente rir. 
— É tão bom conhecer outra pessoa que goste do magnífico Machado de Assis... — Valentim falou completamente contente com um sorriso no rosto. 
— Adoro poesias e músicas, não sou muito chegado à literatura, mas uma rima me encanta. — o rapaz o respondeu aproximando-se mais. 
Valentim ficou surpreso com a resposta dada por Theodoro, e em réplica, sorriu. 
— Por que está tão longe de casa? — Theodoro o perguntou sentando quase ao seu lado. 
— Porque não há ninguém para atrapalhar a minha leitura, há menos barulho e o ar puro somado a essa vista é lindo. — o menino respondeu aproximando mais o seu corpo.
— Ah! — Theodoro ficou surpreso. — Desculpe, não quis atrapalha-lo...
Valentim riu. — Você não me atrapalha.
Theodoro sorriu e seu rosto levemente corou. — Engraçado, não lembro de vê-lo pela escola ou até mesmo pela cidade.
— Porque nunca frequentei a escola, os professores vêm até aqui lecionar e não costumo ir à cidade, na realidade, vagamente lembro a última vez que fui. — o menino respondeu com um pouco de pesar.
O rapaz o olhou espantado, mas nada falou, também não fazia ideia do que falar. O menino leu para ele mais alguns poemas que havia em seu livro e sobre outros assuntos também conversaram. Conseguiu descobrir, contudo, diferente dele o outro adorava matemática.
Já Theodoro não conseguiu retirar de sua cabeça o fato do menino pouco ter ido à cidade, imaginou que ele não possuía amigos e dos prazeres da vida, talvez, nunca experimentado. Quando notaram que o crepúsculo já se iniciava, montaram em seus cavalos saindo rapidamente dali. Ao chegarem a casa grande, os meninos se despediram com um aperto de mão, mas antes de montar no cavalo para retornar a sua casa, Theodoro o surpreendeu.
— Amanhã me encontre no mesmo horário naquela árvore, vou levá-lo até a cidade para conhecer toda aquela imensidão. — o rapaz falou com um sorriso bastante aberto no rosto.


Já estava escuro quando seus olhos voltaram a abrir, Valentim não suportava mais a ideia de se manter trancado naquele quarto, tampouco de se ver longe de Theodoro. Ele pulou da cama em uma fração de segundos e saiu de seu quarto sem fazer barulho. Seus pais ainda não deviam ter voltado, o que era ótimo, pois, Iná estaria ocupada na cozinha e não haveria ninguém para atrapalhar. Caminhou calmamente até o estábulo, retirou o cavalo e partiu da fazenda sem olhar para trás.

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