Laços do tempo
Capítulo dois
Por um
instante pareceu que o tempo congelou, que as moléculas e as partículas do
universo não se mexiam mais. Entretanto, não era o tempo congelar a melhor
saída para Valentim, o menino desejou que o tempo voltasse e que aqueles
últimos segundos fossem apagados. E essa foi a sua lição número um, o tempo não
retroage e não se modifica, as ações e omissões que cometemos nos acompanham
por toda a vida. O tempo deixou de estar congelado e a mente dele voltou a
processar o que acontecia.
Aquele
homem parado na porta, observando-os, era seu pai, ele o olhava enojado e
furioso. Seus passos em direção aos meninos foram pesados, que o fez, por medo,
pular da cama.
— Que
merda é esta aqui?!! — Horácio gritou em fúria.
—
Pa... pa... — Valentim gaguejou, o temor era enorme. Olhou para o lado e olhou
para os olhos de Theodoro, mas, assim como os seus, apresentavam temor.
O rapaz
também estava estático, os olhos esbugalhados e pela sua espinha corria um
suor frio.
— Meu
filho... Um invertido do inferno!! — sua voz estava trêmula. — Mulherzinha
de um mestiço nojento!! — ele gritou. — Que desonra! Você peca contra Deus e mancha
o meu nome.
—
Pa... pai... — ele novamente tentou falar algo, na tentativa, talvez, de
explicar o que estava acontecendo.
— Cala
a boca... Viado de merda! —
Horácio falou ríspido e o olhou enojado novamente, andou até o menino e o
segurou pelos cabelos. Valentim trincou os dentes e semicerrou os olhos de dor.
— Não tem problema, eu conserto você, faço-o virar homem.
Com
mais força ele puxou os cabelos do filho e mais alto o menino gritou. Aquele
som agudo e toda a cena horripilante, fizeram Theodoro retornar a si e sair do
estado petrificado no qual entrou. Ele olhou para o que acontecia assustado.
—
Solte-o! — o rapaz gritou em pânico.
—
Calado! — Horácio gritou e apontou o revólver, que guardava consigo, para o
rapaz. Theodoro o olhou assustado e recuou um passo levantando suas mãos. — Eu
deveria fazer isso... — ele riu em histeria. — Matar os dois e lavar a minha
honra...
Horácio
manteve a arma apontada para a cabeça de Theodoro, enquanto ainda apertava os
cabelos de Valentim com bastante força. O menino trincava os dentes com a dor enorme
que sentia, tentava a todo momento se soltar, contudo, seu pai possuía mais
força. Theodoro quis avançar e tentar apartar tudo aquilo, entretanto o medo o
petrificou. A arma ainda estava apontada para sua cabeça e ele olhava aquele
homem com temor, seus olhos lacrimejavam aos poucos.
O
homem acertou uma joelhada na barriga de Valentim, fazendo-o curvar-se de dor.
Novamente, Theodoro pensou em se aproximar.
— Já
mandei ficar aí! — Horácio gritou.
O
rapaz voltou a se manter congelado e o homem, a desferir chutes no menino.
Valentim gritou de dor, um som agonizante. A cada golpe, a intensidade da força
era aumentada e os gritos ficavam mais altos e agudos. Era inacreditável, como
Horácio detinha de forças para segurar e chutar o próprio filho, ao mesmo
tempo, que apontava uma arma para o amante. Depois de um tempo, ele o deixou
cair e jogado ao chão — sem força alguma para se levantar — o menino ficou. Seu
corpo tremeu com a dor e ele gemeu. Horácio o olhou com nojo e desprezo, chutou-o
sem qualquer piedade, não somente uma, mas, diversas vezes. Valentim gritou e
Theodoro tremia com todo aquele horror.
Horácio,
após alguns segundos, e diversos chutes desferidos ao próprio filho, caminhou
em direção a Theodoro. O rapaz, começou a suar de medo quando aquela figura
imensa ficou frente a frente. Ele sentiu a arma gelada tocar sua testa e o
ouviu acionar o gatilho. Seu corpo tremeu e foi grande a vontade de chorar.
—
Deveria... — o homem falou o olhando de cima a baixo. — Mas, não vou... Tenho
uma amizade grande com seu pai, e assim como consertarei Valentim, tenho
certeza de que ele também cuidará de você. — ele ponderou, agora o olhava nos
olhos. — Mesmo assim, não pense que sairá ileso. — ao concluir a fala, acertou
o rapaz com as costas da sua mão, utilizando de muita força.
No
instante que recebeu o golpe, o rapaz foi ao encontro do chão. Horácio ajoelhou
ao seu lado, o segurou pelo pescoço e voltou a batê-lo com as costas da mão e,
assim como em Valentim, aumentava a força a cada golpe. Theodoro gritou e o som
de sua dor fez o amado abrir os olhos, o menino agonizou de dor com os braços
envolvendo sua barriga. Ele engatinhou até os dois e tentou enforcar seu pai,
aplicando-lhe uma chave. Todavia, o homem possuía mais força, deixou de espancar
Theodoro, desfez o golpe do menino torcendo seu braço, todavia tomando cuidado
para não o quebrar. Acertou o rosto do filho, da mesma forma que fez com o
outro e deixou os dois jogados no chão.
Ao
levantar-se, Horácio olhou, para os dois, enojado, sua real vontade era de
matá-los, ele apontou a arma para Theodoro, começou a pôr peso no gatilho,
todavia, ponderou e não atirou, desistiu de seu desejo, não poderia consumá-lo
por mais que a vontade de lavar a honra gritasse em seu interior, a relação
comercial pesava bastante em sua balança mental. Travou a arma e a guardou,
afastou-se em direção a porta e, quando nela chegou, olhou para os dois por
cima de seus ombros.
—
Coloquem o restante das roupas... — ele falou de forma ríspida, seu semblante
estava fechado. — Mandarei Iná busca-lo... — falou olhando para o filho. —
Quando a você, o levarei para seu pai.
O
homem bateu a porta e a trancou. Com o corpo trêmulo, Valentim e Theodoro
levantaram, a dor era intensa. O rosto do rapaz estava inchado e roxo, o
supercílio cortado devido ao anel que Horácio mantinha na mão.
—
Theo... — Valentim falou com pesar ao tentar se aproximar dele.
Theodoro
deu de ombros e virou o rosto sem respondê-lo. O menino se aproximou e ao
tentar tocá-lo, ele se esquivou. Aquilo foi como uma facada em seu peito, até
mesmo os golpes, que seu pai lhe dera, não haviam doído tanto como aquela
rejeição sem motivo, e o menino chorou. Caiu ajoelhado, petrificado com tudo
aquilo. Naquela posição, observou o rapaz vestir toda a roupa e sentar no chão
longe dele; abaixou a cabeça e continuou a chorar, neste momento, Iná invadiu o
quarto como uma búfala e encontrou o menino que criara em uma situação que
jamais imaginou.
A
senhora correu até ele e o abraçou, deixou-o chorar por algum tempo, foi quando
notou a presença de Theodoro e entendeu toda a situação. Apanhou suas roupas,
vestiu-o e retirou-o daquele casebre. O menino se jogou na cama e somente
chorou, as cortinas, desta vez, mantiveram-se fechadas impedindo a entrada de
luz solar. Depois de algum tempo, das lagrimas terem secado, ele somente se
manteve deitado, inerte em uma única posição, de costas para porta e de olhos
fechados, na tentativa de imaginar um mundo mais tranquilo. E em meio a
imaginações e lembranças, adormeceu.
O primeiro contato
Era uma manhã um tanto fria, o mês de junho
já havia iniciado e a temperatura caíra bastante em relação aos meses
anteriores. Já fazia um tempo desde que Valentim tinha visto Theodoro em sua
cozinha, até voltou a encontrar o rapaz outras vezes, quando este foi a sua
casa, mas jamais trocaram palavras, apenas olhares. O sorriso dele sempre o
fazia corar e com todo o nervosismo acabava perdendo o ar, entretanto, não
havia um dia em que não desejasse vê-lo.
O menino levantou e se arrumou depressa, era
sábado e não haveria professores pela manhã que o chateasse. Comeu o mais
rápido que pode e correu até o estábulo para poder andar a cavalo. Levou
consigo um hydro flask’ (que ganhara de seu avô) com água e um livro. Todavia,
quando ia saindo com o cavalo, viu o rapaz, ele sorriu e seu rosto voltou a
corar, fazendo-o esquecer que estava montado em um animal com triplo de seu
peso e consequentemente cair.
Theodoro assustou-se com o ocorrido e correu
até o menino, por sorte, ele havia caído em um montinho de feno — que alguém
estava preparando para levar para o estábulo —o que amorteceu a queda.
— Está tudo bem com você? — Theodoro falou
estendendo a mão para Valentim.
O menino grunhiu por causa da dor e segurou
na mão do rapaz para poder levantar, este o puxou com força demais, fazendo-os
ficar cara a cara. Pela primeira vez, Theodoro percebeu que os olhos dele eram
azuis e ficou hipnotizado com a intensidade da cor e da beleza que lembrava uma
joia. Depois de alguns segundos, voltou a si e se afastou, o menino voltou a
ter o rosto corado e ficou confuso com tudo que ocorria.
— Você se machucou... — Theodoro falou
colocando a mão no braço direito de Valentim e notando que estava um pouco
arranhado. — Vem comigo, vamos lavar isso.
Valentim estava tão imerso em todo o
ocorrido que acabou esquecendo do cavalo, o animal que se assustara, havia corrido
e quase fugira, mas os funcionários de Horácio haviam o domado e o levado de
volta ao estábulo. Ambos caminharam até uma bica, Theodoro pegou um pedaço de
sabão de coco que havia por ali jogado e com suavidade lavou o braço dele.
— Obrigado... — Valentim sussurrou olhando
para o chão.
— De nada... — o rapaz o respondeu com um
sorriso. — Devia ter mais cuidado! Não se pega um cavalo assim e sai com ele
sem ter prática.
— Mas, eu tenho... — o menino falou
ofendido. Andava a cavalo desde pequeno e jamais havia caído até aquele dia. —
Não sei o que aconteceu hoje, nunca havia caído... De repente me senti tonto e quando
vi já estava no chão.
Theodoro o olhou confuso para o menino,
contudo, relevou toda a situação e tratou de esquecer o que havia acontecido.
— Bom, já que anda tão bem, poderíamos andar,
qualquer dia, juntos. — o rapaz o convidou com um sorriso.
Valentim ficou surpreso com o convite, nunca
tivera companhia para andar a cavalo.
— Eh... Eh... — Valentim ficou nervoso com o
convite e seu rosto voltou a corar. Theodoro riu novamente com a situação. —
Claro. — o menino expeliu a resposta de uma vez.
O rapaz sorriu com a resposta e o menino
consequentemente também; naquele instante pareceu que o tempo estava estático, que
as pessoas haviam desaparecido e que o chão não existia. Eles se viram flutuar com
tudo aquilo, o sentimento agiu como um entorpecente que os retirou da
realidade.
∞
O dia após o ocorrido foi totalmente
diferente de todos os outros na vida de Valentim. Desta vez, o menino não quis
sair da cama para nada, a dor era muito grande, não somente a física, mas
também a emocional. Iná, no mesmo horário, veio chamá-lo, mas ele já se
encontrava virado contra a porta, ela o chamou uma única vez, mas o menino não
moveu um músculo. Se fosse em qualquer outra ocasião, ela teria brincado com
ele e o ameaçado tirá-lo dali a força, todavia, desta vez, optou por nada fazer,
o olhou com pena e saiu do quarto sem fazer qualquer barulho.
Os professores chegavam para ministrar as
aulas, mas não havia aluno para ensinar, o menino se recusou a sair do quarto,
independente da aula que fosse. Iná falou para eles que Valentim estava doente
e que devido à enfermidade não poderia assistir a aula naquele dia. Eles foram
compreensivos, foram embora sem questionar, apenas o professor de língua
portuguesa e literatura que insistiu em vê-lo, mas a cuidadora o impediu.
— Mas, o que há com ele? — o professor
perguntou preocupado.
— Está muito doente... É... É doloroso vê-lo
neste estado. — a cuidadora o respondeu.
— Então deixe-me vê-lo.
— Não! — ela falou se impondo com certa
cautela, não queria que ninguém visse as marcas roxas deixadas pelo corpo do
menino.
Nos dias que sucederam, o mesmo ocorreu, o
menino não saía do quarto. Iná levava a comida, mas ele pouco tocava nela.
— Meu filho, você precisa se alimentar
bem... — ela falou com preocupação. — Ou acabará definhando.
Ele não a respondeu, tampouco a olhou ou
moveu qualquer parte do corpo. Ela ainda pensou em tocá-lo, fazer algum cafuné,
mas quando ia aproximando sua mão, recuou, preferiu deixar que o menino
superasse tudo isso sozinho. Chegou a passar por sua cabeça, palavras que
pudesse dizer e que fossem reconfortantes, mas manteve o silêncio. Os
professores chegaram para lecionar, mas ele se recusava a sair do quarto e Iná
voltava a mentir para eles. Assim, se passou uma semana sem que Valentim
sentisse a luz do sol, balbuciasse qualquer som, se alimentasse direito e
assistisse uma aula. E em um abismo escuro, ele foi deixando a alma cair,
findando a possibilidade de, em outro dia, voltar a sorrir.
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