Laços do tempo
Capítulo um
Chovia
bastante. O som da tempestade ecoava por todo o casebre, contudo, se tornava a
melhor sinfonia para aquele momento único, em meio a beijos e carinhos trocados
por duas pessoas que nutriam um sentimento singelo, puro e único. As
respirações já se encontravam sincronizadas e os corpos, agora unidos, suavam
como nunca haviam suado antes. Era algo tão repreendido que Valentim jamais
acreditou fazer, todavia, aquele sorriso havia o conquistado, os olhos
castanhos o hipnotizado e a pele morena o seduzido. Tudo que o atraiu a um
sentimento tão infindo que jamais pensou em sentir. Aquele ato era um toque que
nunca havia praticado, mas que lhe deu um prazer tão grande que gostaria de
voltar a sentir outras vezes.
Aquele
casebre de madeira à luz de velas, hoje criaria um ambiente perfeito para uma
noite majestosa de amor, e naquela época não foi diferente. O suor escorria
pelos os corpos e a luz alaranjada os fazia brilhar, o vai e vem sincronizado à
respiração tornava tudo melhor e aumentava o nível do prazer. Valentim ficava
arrepiado cada vez que sentia aquele corpo tocar o seu, as pálpebras fechadas
escondiam seus olhos verdes (de um tom quase prata), pois eram tão intensas as
sensações, que não conseguia mantê-las abertas. Uma das mãos passeou pelos seus
cabelos pretos e começou a puxá-los quando o ápice vinha chegando, enquanto a
outra deslizou pelas costas brancas até apalpar o quadril.
Junto a um
intenso trovão, um urro alto e potente anunciou o ápice de tudo aquilo, ambos
estavam em completo êxtase. Os corpos caíram em meio aos lençóis e colchas; as
respirações se encontravam fatigadas e sincronizadas; e, mais um beijo intenso
finalizou todo o ato. Ao abrir os olhos, Valentim se deparou com o sorriso mais
singelo de todo o mundo, mas o que havia de simples, havia de especial para
ele, e aquilo o fez sorrir. Aquele braço rapidamente o envolveu e o puxou para
mais perto, fazendo-o sentir aquele corpo quente e ouvir de leve o coração, o
que o adormeceu e o fez esquecer do resto do mundo. Um erro tão bobo que o
modificou para sempre.
Alguns
meses antes…
Não fazia
muito tempo que o sol havia nascido, mas a luz já havia invadido o quarto de
Valentim e tocado seu angelical rosto. Seu calor ainda não era capaz de
corá-lo, todavia foi o suficiente para despertá-lo de um sono singularmente
tranquilo. A preguiça era tão grande que o fez devagar para se levantar. O
garoto girou para todos os lados daquela cama sem abrir os olhos, estava tão
bom que seria um grande pecado levantar. Entretanto, quando estava prestes a
adormecer novamente, sua cuidadora invadiu o quarto.
— Levante-se,
vamos! — sua voz ecoou.
O menino viu
sua silhueta curvilínea ao semicerrar os olhos e fingiu não a entender, virando
para o outro lado e cobrindo o rosto. Entretanto, aquela mulher não se daria
por vencida rapidamente, conhecia-o desde pequeno, sabia de suas manhas e
truques. Aproximou-se do rosto e segurou o lençol com o intuito de puxá-lo para
baixo.
— Não, Iná,
estou nu! — o garoto argumentou ao segurar o lençol com força para mantê-lo
coberto.
— Para mim
não há nada de novo, conheço o senhorzinho desde bebê, já cansei de banhar este
corpo, além disto, uma velha como essa aqui, não lhe causaria qualquer
constrangimento. — a mulher o respondeu pondo suas mãos na cintura e o olhando
com ironia.
Ele a
olhou seriamente e a senhora esboçou um sorriso amigável, olhar a expressão
furiosa do menino era um deleite.
— Somente
lhe darei cinco minutos para levantar desta cama e se arrumar, caso contrário,
voltarei aqui e lhe arrancarei daí pelado. — Iná o ameaçou com o tom de voz
mais rígido e finalizou com um sorriso meigo, piscando ambos os olhos com
delicadeza.
O menino
virou para o outro lado da cama e voltou a cobrir a cabeça. Alguns segundos
depois, escutou a porta de seu quarto bater. Respirou fundo e levantou, sabia
que se ela voltasse e ele ainda estivesse daquela forma, arrancá-lo-ia sem
pensar mais de uma vez. A contragosto, foi até o banheiro que havia em seu
quarto, lavou-se e vestiu-se rapidamente. Quando saía, voltou a olhar para cama
e o desejo de retornar foi imenso, mas seguiu seu caminho; andou lentamente
pelos corredores da casa, arrastando-se literalmente, e ao aproximar-se da
cozinha, ouviu Iná conversando com alguém.
— Aqui
estão Dona Iná! Todos os produtos que a senhora solicitou a meu pai. Está
faltando alguma coisa? — a voz era jovial e masculina. Valentim grudou ao lado
da porta para ouvir melhor a conversa.
— Deixe-me verificar... — ela o respondeu e começou a remexer as sacolas de papel. —
Farinha, arroz, feijão, açúcar, ervilhas... — ela foi listando os produtos na
medida que os retirava e os empilhava em cima da mesa, ao mesmo tempo, que os
riscava em sua lista.
Valentim
os observou pelo canto da porta e se deparou com alguém que provavelmente tinha
idade próxima a sua — o que era incomum para seus olhos. Seus pais o prendiam
muito em casa, pouquíssimas vezes havia ido à cidade, os professores eram pagos
para irem até à fazenda ensiná-lo e quando não estava estudando, observava o
gado ou andava a cavalo pela propriedade, sem poder sair e conhecer pessoas
diferentes e novas.
Ele ficou
petrificado, com o olhar fixo no outro garoto, o examinou de cima a baixo e se
fascinou pela imagem que contemplou. A voz mais serrada e grave o hipnotizou e,
por alguns instantes, quase babou. O outro garoto acabou notando sua presença e
sorriu ao vê-lo. Aquilo o desmoronou e o fez sentir algo inusitado pela
primeira vez, o tal sentimento que somente havia lido em livros e contos. Seu
rosto ficou corado e mesmo que desejasse sair e se esconder seus pés
permaneciam presos, fixos como raízes de árvores.
— Há algo
de errado... — Iná começou a indagar o menino quando se virou para ver o que
ele olhava e notou que Valentim os espiava pelo corredor. — Valentim!? — ela
falou surpresa ao vê-lo.
O menino
voltou a si ao ouvir a voz de Iná e instantaneamente seu rosto ficou pálido, a
vergonha foi tanta que ele se escondeu atrás da parede e a cuidadora ficou sem
entender o que havia acontecido naquele momento. O coração dele estava
disparado, por mais que tentasse respirar com calma e profundamente, ele não
conseguia desacelerá-lo. Ele fugiu, correu para sala de jantar, ficou sentado à
mesa sem comer nada por alguns minutos, até que seu coração estabilizou e sua
mente voltou a si. Foi quando conseguiu engolir.
Na
cozinha, a cuidadora e o rapaz permaneciam confusos com toda a situação, mas
ela logo descobriria o que havia ocorrido.
— Vá meu
filho! Se estiver faltando algo, eu peço para o capataz informar ao seu pai. —
ela falou com um tom leve de preocupação na sua voz.
O rapaz
somente confirmou com a cabeça e foi embora rapidamente.
Iná sentou
e levemente pousou a mão em sua cabeça, ela pensou que havia entendido o
ocorrido. Como os pais de Valentim não o deixava conviver com outros da mesma
idade, encontrar alguém próximo a ele era tão inusitado que ele não soube o que
fazer — ela pensou. Na realidade, o que aconteceu, até teve uma porcentagem
disto, mas, mínima, foi algo muito mais complexo e difícil de se entender. Ela
guardou os alimentos que haviam chegado, arrumou a cozinha e retirou o café da
manhã assim que Valentim completou seu dejejum. Ela não comentou absolutamente
nada sobre o que havia acontecido, tampouco ele, mas a imagem daquele rapaz
fixou em sua mente, e cada vez que lembrava daquele sorriso, o menino suspirava
como nunca.
Precisava
vê-lo novamente, não sabia nem seu nome, quais livros já havia lido, qual era a
sua poesia favorita, se (assim como ele) o rapaz também não era tão bom em
matemática, entre outras diversas hipóteses que começou a criar em sua mente.
Após comer, ele caminhou até a sala de estudos, na qual seu professor de língua
portuguesa e literatura já o aguardava. Um homem alto e esguio, com óculos
meia-lua e um cabelo acinzentado como o céu antes do temporal. Ele entrou ainda
avoado e sentou à mesa completamente desconcentrado. O homem apenas o homem o
observou, ainda sem tecer comentários. Aquela era sua aula favorita, e passados
dez minutos não havia aberto seu caderno.
—
Refletindo sobre o romance de Gonçalves Dias, senhor Mendonça? — o mestre o
indagou ironicamente ao olhá-lo por cima dos óculos.
O menino
voltou a si em meio ao susto, e, ao tentar explicar, gaguejou. O sênior riu com
toda a situação, ficou maravilhado ao vê-lo no mundo da lua.
— Ler
romances, meu caro, é algo maravilhoso, mas somente vivê-los que é magnífico.
Não passe tempo demais imaginando, cogitando, pensando... — o menino o
observava atentamente. — Ponha em prática, pois o tempo para nós é finito.
Valentim
assentiu com a cabeça e tentou se concentrar, contudo, não conseguiu, o que
gerou reclamações de seus tutores aos seus pais. Eles não entenderam a
situação, como o sênior havia percebido. Julgaram sem buscar saber e majoraram
o ocorrido ao relatar.
Naquela
noite, quando passou pelo escritório do pai, observou que a porta estava
entreaberta e ao ficar mais aproximo, escutou-o conversar com Iná e com sua
mãe.
— Ele está
doente? — seu pai falou, a voz mesmo em um tom mais baixo era irreconhecível,
soava grave e potente.
— Não, meu
senhor, o observei por todo o dia e não apresentou sinal algum de enfermidade.
— Iná respondeu apreensiva.
Valentim
chegou mais próximo da porta para poder ouvir melhor a conversa, um breve
silêncio percorreu aquela sala e aquilo o incomodou profundamente. Ele desejou
ser mais corajoso para poder invadi-la e gritar que estava ótimo, que não havia
nada de errado com ele, mas não fez. O garoto permaneceu inerte e continuou a
ouvir a conversa.
— Há algo
de errado! — sua mãe falou um pouco histérica. — Nunca recebi reclamações por
parte dos professores, ele sempre foi um garoto concentrado, quieto e
estudioso, mas hoje estava disperso, não logrou êxito em nenhum exercício e,
pior, ficou desenhando, em vez, de fazer o solicitado.
O rosto de
Valentim avermelhou de raiva ao ouvir o final da fala, ele não havia desenhado
em aula alguma. Odiava quando inventavam mentiras a seu respeito.
— De fato
ele não é assim... — a cuidadora falou apreensiva.
— Se
atitudes assim continuarem, vou ter que mandá-lo para um internato... — seu pai
falou em um tom ríspido.
Ele não
suportou ficar ali ouvindo falarem dele e foi quieto para o quarto. Detestava
decepcionar seus pais, ouvir críticas a respeito de quem era.
Não gostou
de ouvir que havia algo de errado com ele, quando somente sentia um entusiasmo
forte por aquele misterioso garoto que apareceu em sua casa naquela manhã. O
menino chorou, era uma carga muito intensa de sentimentos, que nunca havia
sentido, e em meio às lágrimas adormeceu.
De
volta ao casebre
Estavam
deitados, aconchegados e quentinhos. Valentim sentia que tinha tudo, entre
aqueles braços que o envolvia ainda nu. Contudo, em um segundo, do céu ele
caiu, junto à porta que foi jogada ao chão com uma única porrada, despertando-o
com estrondoso barulho. Em meio ao susto, viu aquela criatura alta e grande,
quase tampar toda a passagem. Ela o olhava com fúria, nunca havia a visto com
um semblante tão fechado, a raiva era perceptível no olhar. Pronto havia
chegado ao inferno.
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