Cartas: Partida


Centro Médico, do qual já esqueci o nome, e data, da qual já não me recordo,



Amor,



Sinto-me divagar com o passar dos dias e com a degradação vagarosa de meus órgãos. Pego-me em brancos, ao tentar recordar de momentos importantes, dos quais jurei jamais esquecer. Minha mente já é falha e colapsa cada vez mais com as doses de remédios que tardam minha partida. É até cômico, porque sinto que minha alma já desencarnou deste plano e encontra-se na espera desta velha casca se romper e permitir que regresse em outra existência. Peço que me perdoe, mas queria beijá-la, beijar a morte, sentir seu toque frio e enfim poder descansar.



Sabe, em meio a tantos brancos, seu esplêndido rosto surge em pequenos flashes que fazem pulsar mais forte o meu coração. Creio que as drogas que consumíamos, quando mais jovens, tenham deteriorado meu corpo, todavia ao seu lado repetiria cada merda que fizemos, pois esquentava o nosso amor e dava mais tesão as nossas transas. Não me arrependo do que fizemos juntos, arrependo-me do que deixamos de fazer. Como sinto falta de transar com você. Seu corpo colado ao meu e as nossas respirações completamente sincronizadas, era melhor que qualquer entorpecente que poderíamos usar.



Amo-te tanto, que talvez, inconscientemente, não me permito partir, mesmo sentindo mais dor a cada dia que passa, perdendo minhas memórias e esquecendo de quem sou, porque você, somente você, permanece no caos que é minha mente. Lembra-se de como nos conhecemos? De como aquela música alta e a bebida embaralhava nossos sentidos? Outra coisa que é cômica, pois não me lembro do que bebia ou ouvia, mas lembro do gosto do seu beijo, do tocar de nossas línguas e de como te puxei para mais perto do meu corpo. Nossa libido estava em completo êxtase e uma explosão de tesão tomou nosso corpo. Naquela mesma noite, nós nos tornamos um, uma unidade que perdurou atrás do tempo e perdurará através das existências.



Algumas civilizações creem que as almas caminham sempre juntas no decurso do tempo e eu creio nessa filosofia, pois o que vivemos pareceu maior que um simples amor de uma única vida. Sei que te encontrarei após esta e que caminharemos ao lado do outro por toda eternidade, por todas as existências, e isso será maior que nossas diferenças e igualdades, que os preconceitos e julgamentos, que qualquer idioma e distância. Porque o amor não é uma coisa que podemos prever, escolher e administrar, ele é algo incompreensivo e enorme, que arrebata nossos outros sentidos e embaralha nossa razão, restando a nós, pequenos mortais, aceita-lo sem tentar entende-lo ou decifra-lo.



Amor, espero que você entenda, isso não é um adeus, mas o fim de mais um capítulo.



Com carinho, sua eterna metade.

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