"Fé"

Caro leitor, antes de começarmos o texto, gostaria de pedir que analisasse seu conteúdo de forma mais flexível, sem se deixar abalar pelos seus conceitos morais. Um exame crítico dos textos bíblicos é necessário, não somente para sua melhor compreensão, como também para propagação de uma interpretação mais coesa e coerente. Ainda mais, quando passamos por um momento de retrocesso filosófico e a beira de uma nova era das trevas, na qual a intolerância com o próximo é matéria recorrente de jornais pelo mundo.
Falar da crença alheia é um caminho arriscado de pôr em pauta para debate, além de que algumas pessoas se cegam com os dizeres bonitos e enfáticos de falsos profetas — aproveitadores da ingenuidade e deficiência crítica de pessoas com origens humildes e muitas vezes sem estudo — que serve para enriquecer suas contas bancárias com a venda de indulgências ou com a disseminação de falsos milagres, estes televisionados em suas próprias emissoras de sinal aberto. Algo curioso, já que o teólogo percursor das reformas condenava práticas como estas. Todavia, não é sobre o fiel — independente da linha messiânica que segue — que esta prosa vem abordar, mas o deus no qual este segue.
Falar de Deus nos tempos atuais tem se tornado uma temática tão delicada que algumas pessoas se explodem para defender sua honra, propagar sua palavra e punir aqueles com ideologias diferentes; outras simplesmente apedrejam o colega ao lado que não segue o mesmo ritual ou possui formas diferentes de culto; ainda há aqueles que utilizam da rede mundial de computadores para promover boicote e tentar impor censura em um Estado Laico baseado nos Princípios como o da Dignidade da Pessoa Humana e o da Isonomia. Entretanto, não falar desta divindade — em mundo no qual elas se proliferam como correntes que amarram a mente e a paralisam em um só sentido do pensar — é demasiadamente errôneo e burro. Na nossa cultura, aprendemos desde pequenos a adorar e servir um deus, de imensa bondade e compaixão, mas de mão firme ao castigar aqueles que tropeçam ao longo de uma caminhada turva e acentuada. O que contradiz a tese do perdão e da remissão tão cultuada por templos repletos de “ex”.
Torna-se até curioso falar em castigo, quando uma fé é pautada no amor ao próximo e no livre-arbítrio. Citar “amor ao próximo” vira até cômico no momento, em qual se nota que o maior ensinamento do messias mais famoso do mundo, é esquecido por dedos mais letais que uma faca perfeitamente afiada. Óbvio que não se deve fazer uma generalização de valores, não são todos que pensam desta forma. Visto, que novas correntes trazem ‘Mateus 22:39’ com uma interpretação mais clara e sem as amarras de uma sociedade conservadora e retrógrada.
Priscilla Alcântara fala em seu vídeo intitulado “10 fatos sobre Jesus”:
[...] Jesus não é uma religião, mas alguém. A religião é um conjunto de regras que você cumpre com medo de ir para o inferno, já Jesus é o cara, o melhor amigo, o modelo perfeito e ideal para se seguir, onde você em um relacionamento íntimo com ele, quando você cria uma amizade com ele, você aprende a ser santo e puro como ele. A religião é um meio que o homem usa para tentar chegar a Deus, mas Jesus, ele é completamente o contrário disso, foi Deus se reconciliando com o homem. Então, a reconciliação partiu da parte de Deus para o homem. Eu digo isso, porque quando você começa a ver Jesus como uma religião, você se submerge numa atmosfera de religiosidade. Se você lê na Bíblia, as pessoas que não reconheceram Jesus como salvador, foram exatamente as pessoas religiosas, as pessoas que se preocupavam com os rituais, do que com o relacionamento. E esse é o problema da religião, não é tudo sobre ritual, pois Jesus é sobre intimidade, sobre se relacionar com ele. Nas pregações de Jesus, ele nunca falava: 'olha siga tal religião, porque essa religião aí é o caminho, a verdade e a vida’. Não, ele dizia me segue porque eu sou o caminho, a verdade e a vida. Isso me faz lembra do terceiro fato, Jesus não quer crentes, ele quer discípulos. Existe uma diferença gritante entre crentes e discípulos, e Jesus não quer crentes, ele quer discípulos. A bíblia fala que até os demônios creem. Por quê? Porque os bichinhos sabem que Jesus é o cara, então eles creem que Jesus é o cara, eles não têm dúvida. ‘Ah, mas eu também creio em Jesus. Mas, então qual é a diferença entre eu e eles?’ A diferença é que os demônios creem em Jesus, mas eles não são discípulos, [...], porque o discípulo não apenas crê, o discípulo faz o que ele faz.[...]"
Uma fala dessa leva a uma reflexão de tamanha complexidade que faz pensar se é este tal “Deus” — um ser que aparenta ser desvirtuado, egocêntrico, maldoso, narcisista etc. — o disseminador de tanto ódio ou se o fiel com o tempo desaprendeu ou deixou de entender seus provérbios e versículos. É difícil acreditar em um ser místico que dá seu único filho para pagar pelos pecados da sua própria criação — pegados que este intitulou e que sabia que ela cometeria — mas, ao mesmo tempo, condena ao inferno aqueles que erram. É complexo crer em uma entidade onisciente, onipotente e onipresente que é capaz de prever acontecimentos, mas não interfere para dar a todos o livre-arbítrio. Um livre-arbítrio que deveria ser colado entre infinitas aspas, pois seu livro dita regras de como viver. Já pensou que o único propósito da criação é cultuar? E aqueles que não fazem isso perecerão. Analisando bem, transforma-se em um pensamento doentio, proveniente de uma mente psicopata. É cruel! Porque não somente condena as pessoas por possíveis “erros”, como também o faz pelo o que cada uma é.
Quando ponderamos fatos bíblicos e olhamos de forma mais atenta, percebemos que a frase “Não foi Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança, mas o homem que criou Deus a sua própria” começa a fazer bastante sentido, assim não seria Deus o doente, mas o homem que é incapaz de entende-lo da forma correta. Aliás, não foi o “Senhor” que sentou e escreveu o livro santo, mas o homem de outra era, de outra cultura, pode-se dizer que até de outro mundo, o criou para seus iguais. Sendo assim, criar Deus não seria inventá-lo, mas tentar se pôr no lugar dele.
Criamos deuses desde os povos mais antigos, pois uma figura divina é sempre cultuada. O ser humano é uma espécie social, não sabe viver sozinha, nunca soube, da mesma forma que alguns insetos dependem de sua colônia. Desta forma, a criação de um ser que vai além do nosso imaginário, nasce com a necessidade de suprir a lacuna dentro de cada um, motivada pelo infindo não conhecimento de o que há após a vida. Já que não nos conformamos com o não saber de algo e não aceitamos perder aqueles que amamos, de forma que precisamos acreditar que há uma eternidade, pois, a ignorância, o nada, o vazio, enlouquece a mente mais sã.  



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