O antigo eu

Era tão difícil imaginar minha vida sem você, acreditava que não era capaz de viver se um dia você partisse. Entretanto, agora, depois deste tempo sozinho, vejo que já devia ter ido há tempos. Sem você me tornei uma pessoa melhor, mais confiante, hoje, vejo a beleza que há em mim. A mesma que você fazia questão de menosprezar, diminuir e ridicularizar em um cruel tom de brincadeira. Eu me odeio por ter estado tanto tempo aos seus pés, como fui uma pessoa tola.

Acredita que meus amigos sempre disseram que não daria certo?! Falavam que era um barco prestes a naufragar e que se eu não pulasse rapidamente fora, você acabaria comigo. Talvez, você tenha acabado. Fui ao chão de uma forma tão dolorosa, você despedaçou e pisou no meu coração tão forte que pensei não conseguir mais levantar. Fez-me adoecer, chorar. Durante alguns dias, criei minha própria caverna, no meu vazio e escuro quarto. Não comi, não bebi – algo incrível, pois não desidratei de tanto chorar. Afastei-me de meus amigos e deixei a tua falta de caráter findar meus outros relacionamentos.

Durante aqueles dias de dor, relembrei dos falsos momentos de felicidade que tivemos, não me arrependo deles, todavia é uma pena terem sido com você. Lembrei-me da primeira vez que saímos e como o filme foi o menos importante, lembrei-me dos passeios pelo parque e dos pôr de sóis que assistíamos juntos, lembrei-me até dá nossa primeira vez, de como meu corpo tremia, mas você foi capaz de relaxá-lo. Todas essas lembranças faziam, em cacos menores, meu coração ficar. Não conseguia entender como você havia sido capaz de me magoar, eu só lhe dei amor.

Eu pensei tantas vezes em como queria morrer, olhava para lugares altos, dos quais poderia me jogar. Uma vez, até ponderei se você sentiria minha falta, mas eu era ruim até no suicídio. Em uma madrugada fria, percebi que havia morrido, que você me matara e que eu já não era mais o mesmo. Neste momento, eu vi a luz no topo do poço gélido e tenebroso, no qual você me lançou. Quando acordei, para este pensamento, chorei – pela milésima vez – contudo, de felicidade, pois comecei a não me  importar mais com você. Com o tempo resgatei algo que você roubou de mim, meu amor próprio. As olheiras começaram a diminuir, o rosto a desinchar e meu coração a remontar os velhos cacos. Voltei a contemplar a luz das estrelas, a ver o dia e sair a noite. Deixei outra pessoa entrar aos poucos na minha vida; sem ficar com medo, dela fazer o mesmo que você.

Se há algo de bom em tudo que aconteceu, isso é a pessoa nova que nasceu, alguém mais forte, sem deixar de ser doce; mais inteligente, sem deixar de ser lúdico; mais amoroso, sem deixar de se amar. Não desejo a você o mesmo que fez comigo, pois não desejaria isso nem ao meu pior inimigo. Espero que você se torne alguém melhor, que não iluda ou use as pessoas, que aprenda a amar. Porque, ser alguém frio e sem amor, leva-te a um vazio triste e um dia sua vida se tornará tão monótona, que não haverá mais sentido mantê-la.

G.S.S. Botelho

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