Paradas do amor...

_
-
Era uma noite fria, mas não chuvosa ou nem tão fria quanto as mais frias do inverno. Manuela estava sentada no ônibus, que pegava todos os dias para voltar a sua casa depois de um dia de estudos e trabalho. Ela observava, pela janela, muitas pessoas em um “vai e vem” constante pelas ruas. Todas andavam com pressa para chegar a suas casas, sem, ao menos, olhar para trás. Em alguns instantes, a bela garota viajava em seus devaneios e ao olhar pela janela via: dois belos olhos castanhos, já cansados de um dia exaustivo; os cabelos pretos não estavam mais tão bem arrumados, como naquela manhã; e a pele parda já ficava pálida, pois os dias corridos a impediam de ser tocada pelo sol. Sim, ela via o próprio reflexo. 
Manuela viajou tão profundamente em seus pensamentos que não percebeu, não notou, não viu quando outro jovem pela roleta passou e o seu olhar sobre ela se fixou. Ele sentou no banco posterior ao dela e durante toda a viagem a admirou pelo o reflexo da janela. Contudo, a donzela estava tão cansada que em nenhum instante notou de como ele, por ela, já estava fascinado...



E a mesma situação se repetiu pelos dias que se sucederam. Manuela sempre sentada no mesmo banco e ele no posterior a admirando. Ela quando não estava a viajar em devaneios, lia um esplêndido romance ou mergulhava em uma bolha cercada por suas músicas amadas. O garoto – que usava um corte militar despojado; possuía uma pele parda, um pouco queimada do sol; e olhos castanhos como uma bela avelã – sempre se mantinha calado, com o olhar vidrado em um reflexo há dias já bastante idolatrado, pois claro, ele já estava completamente apaixonado.
Certa noite, após semanas de olhares não trocados, ele, enfim, tomou coragem e decidiu conversar com a amada. Novamente entrou no ônibus, sentou no mesmo banco posterior ao dela e a admirou – como fazia todos os dias –, porém no momento que ela levantou para descer em sua parada, ele a acompanhou. Ele correu e ao alcança-la – já com o fôlego esgotado – ela se assustou.
– Sim?! – Manuela perguntou confusa e assustada.
– Eu já te observo há algum tempo e gostaria de saber se poderia acompanhá-la até vossa residência?  – ele a indagou da forma mais cortês que conseguiu, porém o nervosismo o fazia tremer.
– E por que eu lhe deixaria me acompanhar? Não o conheço! E vai que, na realidade, é um estuprador pronto para dar o bote? – ela falou dando um leve passo para trás.
– Estamos sozinhos nesta rua, se eu fosse estuprá-la já teria feito. Eu não pediria para acompanhá-la até em casa. – ele a respondeu com um sorriso e uma piscada no olho direito. – E também já a observo há dias naquele ônibus, já teria te feito mal há muito tempo...
Manuela primeiramente não o respondeu, mas o olhou nos olhos, bem no fundo deles, e percebeu que naquele coração não habitava más intenções.
– Posso? – ele a perguntou após alguns segundos de silêncio.
– Acredito que a rua seja pública. Ou não? – ela o respondeu com um sorriso. – Ninguém pode impedi-lo de transitar por aonde desejar.
– Certo... – ele falou devolvendo o mesmo sorriso.
Manuela começou a caminhar em direção a sua casa e o garoto, no mesmo instante, acompanhou.
– Então, você tem me paquerado há alguns dias? – Manuela o perguntou com um sorriso cínico.
– Acho que já tem algumas semanas... – ele a respondeu com um pouco de timidez.
– E não se assustou? – ela riu novamente.
– Ah! Com certeza eu me assustei, mas foi com tamanha beleza que presenciei.
Manuela ficou vermelha com o elogio e desta vez foi impossível não sorrir.
– Creio que após tantos dias me observando, você tem meio que a obrigação de me falar seu nome. – Manuela ironizou.
– Você está certa, realmente tem todo o direito de saber meu nome e eu já deveria ter me apresentado há algum tempo, perdoe-me. – ele a respondeu com um sorriso. – Eu me chamo João. E qual seria o nome da bela moçoila?
– Moçoila?! – Manuela riu. – Você não é brasileiro né?
– É tão evidente? – João também riu. – Pensei que já houvesse perdido o sotaque...
– E já perdeu, mas nenhum brasileiro fala “moçoila” ou “vossa residência”. – ela falou e com os dedos fez duas aspas em moçoila e em vossa residência.
João ficou vermelho e apenas sorriu.
– E de onde você é?
– Sou português, ou melhor, sou de Portugal. – ele a respondeu com o sotaque português.
Manuela riu e João sorriu junto a ela.
Os dois continuaram caminhando e conversando. Após alguns minutos, chegaram à frente de uma casa bem bonita e grande. Manuela apanhou o chaveiro que estava em sua mochila e abriu levemente o portão.
– Obrigada... – ela o agradeceu com um sorriso.
– Eu que lhe agradeço por dar-me o prazer de poder acompanha-la. – ele a respondeu retribuindo o sorriso.
Manuela fechou o portão bem levemente e entrou, enquanto João voltou a caminhar em direção ao seu caminho. No dia seguinte, ambos pegaram o mesmo ônibus novamente, porém, desta vez, ele não sentou no banco posterior ao dela, e sim, ao lado. Os dois foram conversando durante toda a viagem e quando ela chegou ao ponto que deveria descer, ele novamente a acompanhou até em casa.
Juntos, os dois fizeram o mesmo caminho que haviam feito no dia anterior, enquanto conversavam sobre diversos assuntos, sem deixar que a conversa ficasse monótona ou que chegasse ao fim. Quando chegaram ao portão, se despediram novamente com um sorriso e cada um seguiu o seu caminho. A partir daquele dia, os dois passaram a fazer o mesmo, todos os dias.
Com o passar das semanas, João conseguiu o número do celular de Manuela e durante horas da madrugada ou do dia os dois conversavam. Era inacreditável como o assunto não acabava. Fosse o vestido da cantora preferida de Manuela, que João a ajuda a zoar, ou talvez, o time de futebol dele que perdia uma partida e ela o ajudava a xingar o técnico ou os jogadores. Os dois tornaram-se grandes amigos, mas João não queria só isso, ele a amava, ele queria tudo que o universo tivesse a oferecer.
Em uma noite estrelada, João a acompanhava novamente como de costume e conversavam sem perceber a estrela cadente que havia cordato a imensidão azul.
– João, o que fará hoje? É uma sexta-feira muito bonita.
– Vou sair com uma menina. – ele a respondeu.
– Ah, espero que se divirtam. – ela falou com pesar.
– Eu quero muito beijá-la, já tem dias. O que eu devo fazer?
– Se ela gosta de você a beije sem pedir. Nada melhor que um beijo roubado.
– E se por acaso ela não gostar do beijo?
– Duvido que não goste...
 Os dois chegaram à casa de Manuela, e como sempre, a menina abriu o portão, mas dessa vez, ela tomou a coragem e fez algo que já tinha vontade de fazer há dias. Ela o puxou, para que ficasse colado a ela, e o beijou. O beijo foi delicado, foi doce e, no mesmo instante, ele a respondeu com um beijo mais feroz, mais firme. A mão dele passeou de leve pelo corpo dela sem que fosse vulgar, sem que a assustasse ou abusasse do momento. A dela não, ela acariciou o semblante dele bem delicadamente.
Quando os dois terminaram o beijo, já tão aguardado, se olharam e ela timidamente sorriu.
– Acho que não vou precisar roubar... – ele sussurrou. – Ela já fez isso...
Manuela ficou avermelhada.
– Eu iria perguntar se sairia comigo e depois te daria um beijo, mas você já adiantou a segunda parte. – ele riu. – Quer sair comigo? Mas, sair e ficar comigo para sempre? Quer ser pra sempre minha?
– Quero... – ela sussurrou.
– Eu te amo, Manuela. – ele gritou.
– Eu te amo, João...

Ela ficou vermelha novamente e ele a beijou. A partir daquele beijo, tudo mudou, ele foi para sempre dela e ela para sempre dele. Porque o amor é algo tão mágico que pode nascer no lugar que se menos acredita, na noite que se menos espera.

Autor: G.S.S. Botelho

Comentários

Postar um comentário