Cartas: Planeta Água
Via Láctea, bilhões de anos no
espaço.
Humanos,
Tenho bastante raiva de tê-los
gerado, alimentado e protegido ao longo desses milhões de anos. Vocês nunca
souberam retribuir tudo que faço. São a espécie mais egoísta e cruel que já
habitou em minha superfície. Acreditam que pertenço somente a vocês e que outros
não dependem da minha existência, e, por isso, acabam tratando os
recursos finitos que ofereço de maneira inadequada e descartável. Todos os
eventuais problemas que tenho possuem a mão pesada de vocês.
Se hoje os meus polos estão
derretendo, outras espécies estão morrendo, estou aquecendo e esfriando descontroladamente é tudo
culpa da falta de controle que há em vocês. Tratam minha atmosfera como o
pulmão de um narcótico que consome dezenas de maços de cigarro por dia. Minha água — que é essencial para a vida te todos, inclusive a de vocês — está se esgotando, porque vocês a descartam como se fosse infinita ou a poluem de forma nojenta. A cada dia, eu estou morrendo,
sendo envenenada por vocês de forma rápida e cruel.
Será que ainda não passou pela
cabeça de vocês que, talvez, esta seja a última geração a conhecer a água de forma mais acessível nas enormes cidades? Hoje o mundo se mata por dinheiro, amanhã será por
apenas um copo d’água. Porque se o produto mais forte que possuo acabar, o
dinheiro que é tão importante não será nada. Será somente o que ele é, um
pedaço de papel retirado de minhas árvores, que são desmatadas sem piedade e sem
compaixão, porque vocês esquecem que elas também possuem vida e são essenciais a vocês. Um dia, as
pessoas passarão a trocar produtos por litros d’água e uma guerra pela sobrevivência
irá se instalar. Os outros animais morrerão, pois eles não conseguiram vencer
esta luta terrível e cruel. E quando tudo que restar acabar – porque eu tenho
certeza que irá – vocês definharão até a morte. Logo, serei somente um deserto
sem vida, como o meu querido irmão vermelho.
Sinto que não há mais tempo de
contornar essa situação, porque a cada dia que passa, a minha vida vai perdendo
forças e um dia sei que morrerei. Contudo, há como adiar, ainda há maneiras de
que eu viva por mais muitos anos e, para isso, é necessário que vocês
mudem seus hábitos imediatamente, porque se vocês não fizerem, em poucos anos –
talvez, até o final da próxima década – tudo se esgotará e não restará nada mais a ser feito.
Não peguem essa carta como um
texto de misericórdia, eu não estou implorando para que apenas me salvem, mas, para que
se salvem também. Porque eu continuarei aqui até o fim dos tempos, mesmo que não haja
nenhuma vida em mim, mas a existência de vocês depende de mim, depende
da água, de toda a natureza. Não destruam mais as minhas florestas, não matem
sem razão minhas outras espécies, porque a vida delas é tão importante quanto a
vossa e, por fim, não desperdicem, não acabem com a fonte primordial de toda a
vida. Porque não há a vida de vocês se não houver a minha.
Planeta
Terra, ou do jeito correto que deveriam me chamar:

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