Um Boneco De Neve

Capítulo Quatro




A noite ainda reinava absolutamente, enquanto Anne e eu nos dirigíamos para o Norte. Eu não a perguntei como conseguiu aquela estrela e também aquilo não me importava agora, eu só queria saber de chegar ao Norte e poder dormir em minha cama. O quanto mais perto nós nos aproximávamos, ficava mais frio, me fazendo até sentir saudades do uniforme de meu pai. Quando o dia amanheceu, nós conseguimos avistar ao longe a grande cidade que ficava em um local onde os humanos nunca se atreviam a ir.
– Teria sido melhor, você ter nos transportado. Agora estaríamos dentro da cidade onde não faz esse frio. – argumentei.
– Não é possível! A cidade tem encantamentos feitos para que ninguém indesejável entre. Encantamentos feitos por fadas muito antigas e poderosas. – ela me respondeu.
– Mas, nós não somos indesejados. – falei confuso.
– Sim, nós não somos. Contudo, a proteção repele toda e qualquer outra forma de magia, exceto a da estrela de natal. – ela me explicou.
Chegamos à fronteira da cidade e dois guardas se aproximaram de nós. Eram dois duendes altos, com cabelos e olhos pretos. Eles estavam muito sérios e seguravam um cetro com uma pedra branca, ela ficaria vermelha se eu fosse um impostor. Ao colocar o cetro em minha frente e perceber que realmente era eu, eles finalmente liberaram a passagem tocando em uma placa que dizia: "PERIGO MORTAL, NÃO SE APROXIME!". Passei pelos dois com um grande sorriso e entrei na cidade. Assim que passamos pela placa, o medalhão desapareceu junto com as renas. Percebi no exato momento o que aquilo significava, eles haviam voltado para seu verdadeiro dono.
Anne e eu caminhamos por alguns minutos até chegarmos a uma bifurcação: o lado esquerdo levava ao Norte e o direito a Fairyland (o vilarejo das fadas).
– Chegou a hora de nos despedirmos. – Anne disse com um sorriso.
– Obrigado, por tudo. – falei estendendo a mão.
– Não foi nada e muito obrigada também. – ela respondeu.
Anne ignorou minha mão estendida e me abraçou com força.
– Amigos, certo? – perguntei com um sorriso.
– É claro! – respondeu com outro. – Sabe, quando me falaram que eu teria que ajudá-lo, fiquei preocupada, pois você era chamado de boneco de neve entre as fadas.
– Boneco de neve? – perguntei confuso.
– São as pessoas frias, que não se importam com os outros, por causa de algo ruim que aconteceu em suas vidas. Contudo, você não é assim. Eu percebi que você se importa com o Natal e não quer que ele seja ridicularizado. Isso significa, que por mais que você diga não ter desejo de ser o próximo Noel, você se importa com o legado que será seu. – ela me explicou.
Eu não estava nenhum pouco a fim de estragar o momento voltando à discussão de ser ou não o Noel. Até mesmo, porque depois de ter visto a alegria daquelas crianças, a me ver entrar no hospital, eu tinha certeza que no futuro acabaria sendo o Noel. Então eu apenas falei:
– Feliz Natal! – desejei a ela com um sorriso.
– Feliz Natal! – ela me respondeu com outro.
Cada um seguiu o seu caminho e eu fui direto para casa. As ruas brancas do Norte estavam silenciosas, com certeza, muitos ainda dormiam após a bela noite de véspera de Natal que eles tiveram. Entrei em casa sem tentar fazer barulho, mas antes que pudesse chegar à escada, meu pai apareceu atrás de mim, vindo da cozinha.
– Olá Noah. – ele falou.
– Olá, pai. – falei tentando retribuir a gentileza.
– Foi muito bonito o que você fez pelas crianças daquele hospital. – ele falou.
– Obrigado. – respondi um pouco sem graça. – Desculpe por tudo. Só de pensar que o natal delas estaria arruinado fico triste. – confessei.
– Tudo bem, meu filho, o importante é que você entendeu. – ele falou.
Nós nos abraçamos. Foi um abraço de desculpas mútuas e quando um se soltou do outro, o passado havia sido esquecido e perdoado. Continuei subindo as escadas e ele ficou parado me observando. Antes de pisar no último degrau, me virei e o perguntei:
– Eu fiquei me perguntando, como eu utilizei o medalhão se você precisa dele?
– Quando você precisou do medalhão, a sua fada madrinha veio buscá-lo, mas não no mesmo horário que você precisou. Ela viajou até o futuro, exatamente às seis horas da manhã, no exato momento que eu não preciso mais dele. Entendeu? – ele me perguntou.
– Meio confuso, mas tudo bem. Vou pro quarto dormir, até mais tarde para a ceia de almoço.
– Até! – ele falou carinhosamente e fez algo que há algum tempo eu não via, sorriu para mim.
Caminhei até o meu quarto em silêncio. Meu corpo inteiro doía e eu estava desesperado para encontrar minha cama. Dormiria por mil anos se fosse possível e ainda reclamaria de sono. Assim que cheguei ao meu quarto e passei pela porta, encontrei Mary deitada em minha cama, abraçada ao Rodolfo de pelúcia, que eu havia ganhado da Amanda. No instante que me viu, ela soltou o bicho e correu até mim e me abraçou.
– Pensei que você iria demorar muito para voltar. – ela falou quase chorando.
– Não preciso perguntar se sentiu minha falta. – falei rindo.
– Idiota. – ela falou me soltando.
– Mas, saiba que eu senti muito a sua também. – falei abraçando-a muito forte.
Ela sorriu.
– Onde arrumou aquele bichinho. – me perguntou pegando-o novamente.
– Ganhei de uma menina muito especial que ajudei. Você adoraria conhecê-la, ela consegue levar felicidade a todos que estão a sua volta. – a respondi.
– Quero que você me conte tudo. – falou animada e depois se sentou em minha cama.
– Conto sim. – respondi e depois levantei o queixo dela e a beijei. Foi algo de impulso e inesperado, eu tinha tanta saudade dela, que não consegui mais segurar, dentro de mim, o sentimento que batia forte por ela. – Teamo. – falei de uma vez sem respirar.
– Eu te amo mais. – ela respondeu retribuindo o beijo.
Enquanto nos beijávamos, uma bola de neve acertou a janela do meu quarto. Quando cheguei para ver quem era, encontrei Anne com um belo vestido branco, um pouco curto, e de suas costas saiam duas asas azuis com pontos brancos como estrelas e suas pontas eram cor de rosa, mas um rosa que se misturava com o azul intenso.
– Nossa! – exclamei surpreso.
– Agora sou oficialmente uma fada madrinha. – ela falou voando até o meu quarto. – Oi Mary. – disse quando a viu.
– Oi Anne. – Mary respondeu com um sorriso e correu para abraçá-la. – Você está linda.
– Obrigada, seu namorado me deu muito trabalho, você deveria dar uns tapas nele. – Anne falou com um sorriso irônico.
Olhei para ela sério, enquanto Mary ria.
– O que foi? – Anne perguntou rindo.
Deixei de lado a piada dela e perguntei o que havia me deixado mais curioso. – Como vocês se conhecem?
– Nossas mães são amigas e, consequentemente, nos tornamos também. – Mary respondeu.
– Bom, mas agora eu não tenho tempo para ficar discutindo sobre isso. Tenho que ir até o castelo das fadas, para buscar minha varinha com a Fada Rainha. Torne-me finalmente uma fada-madrinha. – Anne falou e sem esperar que respondêssemos, saiu voando pela janela.
– Vamos descer? – Mary perguntou.
– Não! Quero dormir... – falei abraçando-a. –... e agarradinho com você.
– É tudo que mais quero então.

Eu me joguei na cama com ela e nós dois dormimos até a hora da ceia de almoço, onde contei tudo que me aconteceu naquela mágica noite. A noite que percebi que há sim muita gente que não se importa com o natal. Contudo, há um número muito maior daqueles que acreditam na magia do feriado e, por esses, me decidi. Eu seria futuramente o Papai Noel... 

Fim





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