Um Boneco De Neve
Capítulo Três
Tudo voltou a ser uma completa escuridão. Poucos segundos depois,
várias estrelas começaram a aparecer ao nosso redor. Houve, então, um clarão
muito forte, que me fez fechar os olhos de tão intenso que era. Quando os abri
novamente, Anne e eu estávamos em frente a um hospital.
Só havia três andares no hospital e todas as janelas estavam
completamente iluminadas com luzes de natal, além, de estarem abertas. O prédio
tinha uma pequena escada, que levava até a sua porta e ao lado, desta escada,
uma rampa. Ele era completamente branco e era perceptível a falta de felicidade
no ar. Havia um enorme estacionamento a minha esquerda e um lindo jardim que
estava totalmente vazio, por mais que ainda fosse um bonito dia.
– Onde estamos? – perguntei confuso. – Eu não deveria estar ajudando a
segunda família?
– E você irá! – Anne me respondeu com um sorriso. – As pessoas que
estão nesse hospital, se consideram uma família. Lá há dezenas de crianças com
câncer, crianças que estão à espera do Papai Noel.
– Eu não sou o Papai Noel... – falei bastante nervoso e comecei a me
afastar.
– O que foi?! Tem medo de ver a realidade?! Medo de ver que as pessoas
realmente te acham importante?! – Ela perguntou com raiva.
– Realmente sou importante! – debochei. – Um símbolo muito importante
para o comércio! – conclui aos berros.
– Por favor, Noah. – ela falou incrédula.
– Por favor, digo eu! Por que você está aqui?! Por que você reviverá
este dia cem vezes se for necessário por minha causa? – perguntei com raiva.
Anne ficou em silêncio e somente me fitou por alguns segundos. Aquilo
me levou a total raiva. Era óbvio que ela estava ali por algum motivo e eu já
estava louco para saber qual era. Com certeza, meu pai a mandou para me
irritar. Ele provavelmente esperava que eu fracassasse e revivesse este dia
dezenas de vezes. Ela continuava a me fitar, como se estivesse procurando as
palavras certas, para me dar uma resposta ou apenas zombando de mim.
– Ficou muda?! – gritei após alguns minutos de silêncio total.
– Comporte-se, você está na frente de um hospital. – respondeu o mais
pacifica possível. – Contudo, eu irei contar o que estou fazendo aqui. – ela
sorriu. – Estou aqui para ajudá-lo a tornar o natal de duas famílias mais
feliz. – ela concluiu com um sorriso que me pareceu muito irônico.
– Ah, não pode ser! Poupe-me né?! Diga logo, o que você está fazendo
aqui. – falei com mais raiva.
– Sou uma fada-madrinha, ok? Ou quase... Para me tornar uma fada-madrinha,
eu preciso terminar o curso e para conseguir concluí-lo, preciso lhe ajudar. –
respondeu de forma doce.
– Então, me ajude e me leve para uma família. – falei impondo
autoridade.
– Eu já lhe trouxe! Ou não está vendo? – ela perguntou apontando para
o hospital. – Eu já te expliquei que neste hospital todos se tratam como se fossem
uma enorme família, gênio.
– Não irei entrar lá dentro! – afirmei com convicção.
– Bom, ainda não anoiteceu e alguma hora você terá que entrar ou
reviverá este dia, na frente deste hospital, várias vezes até que entre. – ela
me respondeu, caminhou até os bancos do jardim e se sentou em um deles.
– O que você está fazendo? – perguntei impaciente.
– Esperando você entrar no hospital!
– Eu não irei entrar! – respondi com raiva. – Já mandei que me levasse
a outra família. Contudo, já que você não vai, eu não quero mais a sua ajuda! Eu
irei encontrar outra família sozinho.
– Ah é? – ela riu. – Então encontre! Não sei, porque eu aceitei ser
fada-madrinha... Se o que eu realmente queria, era ser fada do dente, mas a
minha mãe não quis aceitar: “Há dez gerações, somos fadas-madrinhas e você não
irá quebrar está tradição”. – ela resmungou sozinha levantando do banco, depois
caminhou um pouco e sumiu em um piscar de olhos.
Eu estava sozinho e não sabia o que fazer. Caminhei até a porta do
prédio e me sentei nas escadas que davam para a mesma. Durante alguns minutos, olhei
para trás e até cheguei pensar em entrar, mas meu orgulho não me deixou e eu
permaneci sentado ali, como uma estátua. Quando mais perto o sol se aproximava
do horizonte, mais meu orgulho crescia.
– O que está fazendo? – uma voz doce atrás de mim perguntou.
Eu me virei e vi uma mulher alta, com a pele negra, seus traços eram
finos e sua postura muito rígida, seus cabelos trançados estavam presos em um
coque e toda sua seriedade ficava mais forte atrás daquela roupa azul-claro.
Ela me olhava com bastante atenção, exatamente igual quando uma mãe observa um
filho desobedecê-la. Eu a fitei, mas não tive resposta para dá-la.
– Não precisa ter vergonha... As crianças irão adorar receber uma
visita. – ela falou abrindo um leve sorriso. – Você tem algum irmão aqui? Ou
primo ou sobrinho, talvez? – perguntou curiosa.
Neguei com a cabeça.
– Nossa! – ela disse surpresa. – É muito difícil alguém da sua idade
vim visitar as crianças, sem ter qualquer parentesco, mas mesmo assim venha.
Qualquer coisa chame, meu nome é Maria. – ela concluiu estendendo a mão para
mim e eu a peguei.
Ela me guiou para dentro do hospital. A sala de recepção estava com
algumas crianças e seus familiares, que me olharam atentamente ao ver-me
entrar. Era um local bem espaçoso, com sofás de aparência aconchegante. Assim
que entrei duas crianças caminharam até mim e uma puxou a minha mão esquerda.
Eu abaixei e vi uma linda menininha. Ela já estava totalmente careca, seus
olhos estavam fundos e até diria que ela estava um pouco magra, porém havia um
lindo sorriso em seu rosto.
– Quem é você? – a voz fina e doce daquela linda criança falou.
– É... Eu me chamo Noah, vim vê-los. – respondi com um sorriso
amarelo.
– Seu nome é muito bonito. – ela falou mantendo o sorriso.
– E qual é o seu nome? – perguntei retribuindo um sorriso melhor.
– Eu me chamo Amanda. – ela respondeu. – Você vai brincar com a gente?
– perguntou animada.
– Vou.
Ela segurou minha mão e me arrastou para dentro do hospital. Ao sair
da sala, eu consegui sentir os olhares dos familiares das crianças me
acompanhar. Amanda me levou até um leito onde havia umas seis crianças
deitadas. Elas pareciam muito doentes, quando me olharam eu percebi que elas já
estavam em um estágio muito avançado da doença.
– Ele veio brincar com a gente. – Amanda falou com um sorriso.
As crianças que estavam deitadas somente me olharam sem esboçar nenhum
sentimento. Amanda me levou até um baú, que havia ao lado da porta, ela o abriu
e começou a me dar vários brinquedos que havia ali dentro. Bonecas, bonecos,
carrinhos, bolas, panelas de brinquedos e diversas outras coisas.
– Esse é o...
– Rodolfo. – falei ao ver a rena de pelúcia com o nariz vermelho.
Aquilo me fez sentir um aperto no coração, eu estava com saudades de
casa e também estava triste. Ao ver aquelas crianças deitadas, como se já
tivessem mortas, me fez chorar por dentro, além, da pelúcia, que tinha um
grande significando. Rodolfo não era uma simples rena, eu o havia encontrado e
cuidado quando era um pequeno filhotinho. Ele havia se tornado um companheiro
fiel. Fiquei muito emocionado quando vi aquela rena de pelúcia e chorei quando
a peguei em minhas mãos.
– O Papai Noel as usa para puxar o trenó... – Amanda começou a falar.
– Nós queríamos poder ver o Papai Noel, mas ele chega muito tarde e não nos
deixam ficar muito tempo acordados. – ela disse triste.
– E se eu trouxesse o Papai Noel aqui mais cedo, para que vocês possam
vê-lo? – perguntei ao entregar a rena de volta.
– E como você vai fazer isso? – perguntou curiosa.
– Eu sou grande amigo do Papai Noel e vou pedi-lo para passar aqui
primeiro. – expliquei.
– É nada. – um garotinho falou.
– Sou! – respondi com um sorriso. – Vocês vão ver.
Brinquei, com a Amanda e algumas outras crianças, por algumas horas.
Quando o fim da tarde se aproximou, sai do quarto delas, passei pela recepção
rapidamente e caminhei até o banco onde Anne havia ficado. Quando cheguei ao
banco, me lembrei de que havíamos brigado e ela não estava mais ali. Sentei e
comecei a me sentir muito mal. Eu havia prometido aquelas crianças que traria o
Papai Noel, mas sem a ajuda de Anne, eu não era capaz de fazer nada. Olhei para
trás, vi o hospital e me senti a pior pessoa do mundo. A noite nasceu e a cada
instante que passava eu me sentia pior, porém, quando já estava perdendo as
esperanças, uma estrela vermelha emitindo uma luz dourada apareceu na minha
frente.
No momento que a vi, já sabia o que significava e o que aconteceria se
eu a tocasse. Olhei para ver se havia alguém, levantei e a toquei.
Senti meu corpo crescer, mais alguns centímetros, uma barba branca
nascer em meu rosto. Engordei um bocado, meus olhos ficaram azuis, minha roupa
mudou totalmente, agora eu estava vestindo o uniforme do Noel. Quando tudo
acabou, eu olhei para as minhas mãos e depois toquei em meu rosto. De repente,
ao meu lado apareceram: as renas e o trenó de meu pai, com um saco enorme com
brinquedos.
– Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido,
Trovão e Relâmpago, o que vocês fazem aqui?! – perguntei surpreso ao vê-los e
depois abracei cada um.
Caminhei até o trenó e peguei o grande saco com brinquedos. Depois,
caminhei até o hospital com um grande sorriso. Assim que passei pela porta,
todos que estavam lá dentro me olharam assustados, mas um segundo depois as
crianças correram até mim e me abraçaram.
– É você mesmo, Papai Noel? – Amanda me perguntou.
– Sim, sou eu. – respondi com um sorriso e neste momento percebi que
minha voz também havia mudado. Agora ela estava mais rouca e grave. Agachei-me
na altura dela. – Um amigo meu, chamado Noah, pediu para que eu viesse aqui
mais cedo. Porque há crianças muito boazinhas a minha espera.
Levantei e assim voltei a postura ereta, Maria se aproximou de mim.
– Obrigada. – sussurrou com os olhos repletos de lágrimas.
– Pelo o que, senhora? – perguntei confuso.
– Fazer o natal delas mais especial... – ela me respondeu chorando. –
Não tenho como retribuir.
– Minha retribuição não será com nada que a senhora possa me dar.
Tenha certeza disso. Manter a magia e a fé acesa em nossos corações é o melhor
remédio para os momentos difíceis. Não estou fazendo nada por elas, elas que
farão por mim. – a respondi com um sorriso.
Maria secou os olhos e sorriu de volta.
Voltei-me para as crianças e com um sorriso enorme falei:
– Eu trouce presente para todos.
– Sente-se aqui. – Maria falou me levando até um sofá. – Crianças, uma
por vez para o Papai Noel entregar os presentes. – ela falou com os pequeninos.
– O senhor permitiria que eu tirasse fotos? – ela perguntou ainda muito
emocionada.
– Jamais sairia daqui sem fotos. – respondi com um sorriso.
As crianças fizeram uma fila e uma por uma veio até mim. Elas sentavam
em meu colo e eu as entregava os presentes, que continham seus nomes. Depois,
dava um beijo na testa de cada uma, elas agradeciam, algumas davam um beijo em
meu rosto. Maria tirava diversas fotos,
em vários momentos. Quando terminei de entregar os presentes para cada criança,
que estavam de pé, Maria levou-me até alguns leitos que continham crianças
muito doentes. Entrei os presentes e beijei a testa de cada uma, após fazer um
leve carinho. Quando terminei, Maria me levou até a porta.
– Crianças, eu já tenho que ir, ainda há muitas casas a visitar, mas
foi um encanto conhecê-las. – falei com um sorriso.
– Obrigada novamente. – Maria falou.
– Não foi nada. – respondi.
– Papai Noel! – Amanda gritou correndo ao meu encontro.
– Sim?!
– Entrega isso para o Noah... – ela falou me entregando a rena de
pelúcia.
– É...
– Por favor. Ele veio até aqui nos visitar mais cedo, o senhor deve
saber, e ele parecia muito triste, mas quando mostrei para ele o Rodolfo, ele
meio que ficou feliz. Pareceu ter saudade de algo e acho que o Rodolfo fará
mais bem para ele, do que para a gente. – ela explicou.
– Tudo bem. – respondi com um sorriso e coloquei a rena de pelúcia
dentro do saco. – Até o ano que vem crianças! Não se esqueçam de comportar-se e
de tomar todos os remédios direitinhos. Quero ver no próximo ano, todas vocês
em suas casas comemorando o natal. Feliz
Natal!
Eu saí do hospital acompanhado
de Maria, que me levou até o fim da escadaria.
– Quem é o senhor? – ela me perguntou assim que descemos as escadas.
– Ora, sou o Papai Noel. – respondi com um sorriso.
– É sério. – falou rindo com a minha resposta. – Quem é o senhor?
– Ho... ho... ho... Não é porque você cresceu que necessita deixar de
acreditar... – ri colocando a mão na minha barriga. – Nunca falei tão sério em
minha vida. Eu sou o Papai Noel. – respondi com um sorriso.
– Obrigada, então Papai Noel. – ela respondeu convencendo-se de que
não teria a resposta deseja e no fim me abraçou. – Você fez nosso Natal muito
mais feliz.
Apenas sorri e caminhei em direção ao trenó. Quando cheguei, coloquei
o saco na traseira e entrei. Vi-a voltar para dentro do hospital com um grande
sorriso e em meu rosto se abriu outro. A mágica começou a se desfazer e como em
uma respiração profunda eu deixei de ser Noel e voltei ao meu corpo normal,
porém as renas não foram embora, permaneceram ali para me levarem de volta a
minha casa.
– Foi muito bonito o que você fez. – Anne falou atrás de mim.
– Que susto! – gritei.
Ela riu.
– Pensei que tivesse ido embora.
– Eu nunca fui embora! – ela falou com um sorriso. – Quem você acha
que trouxe a estrela e o trenó até aqui?
– Como sabia que me transformaria? – perguntei curioso.
Anne riu.
– Porque você é o Noel e o amor das crianças sempre falará mais alto,
mais alto que qualquer orgulho que possa vim a preencher seu coração, Noah. –
ela respondeu.
– Obrigado. – agradeci com um sorriso.
Ela somente retribuiu o sorriso. Então, as renas começaram a andar,
rapidamente passaram a correr e em um instante estávamos no céu. O destino
daquela viagem era o mais esperado, era o mais necessário. Ainda havia uma
família para ajudar com um feliz natal. Eu estava a caminho dela, eu estava a
caminho de casa...
Cont...

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