Um Boneco De Neve
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Capítulo Um
Era uma noite fria, como qualquer outra aqui no Norte, eu estava
acompanhado de Chris e Steven, eles são os meus melhores amigos, nós estávamos
invadindo a fábrica de brinquedos do Noel. Era uma vingança que eu havia
planejando há pouco tempo, mas ela não saiu como o esperado e acabamos sendo
pegos. Todavia, antes de contar o que aconteceu – depois que nós fomos pegos em
flagrante – contarei alguns acontecimentos que antecederam tudo isso.
Primeiramente, muitos pensam que ele não existe, mas há aqueles que
acreditam e, estes, pensam que ele é imortal. Digo ao grupo, dos crentes, vocês
estão parcialmente certos, ele existe, mas não é uma pessoa imortal ou muito
menos é uma pessoa...
Na realidade, o Papai Noel é um cargo, assim como o rei, ele é passado
hereditariamente de pai para filho, a cada 70 anos ou após o falecimento do
atual Noel. Na noite de natal, o atual Noel abre o medalhão da estrela de natal
e se transforma no Papai Noel. O medalhão, dourado e antigo, contém uma estrela
em seu interior. Ela é pequena e vermelha, que por mais curioso que seja, emite
uma luz dourada.
Os Noéis vivem no Norte, uma cidade localizada no centro do Polo Norte
e, aqui, eles são encarregados de cuidar da cidade e dos duendes que a habitam.
Não pense que duendes são aquelas criaturas pequenas e/ou esverdeadas e que
deixam seu dinheiro no final de um arco-íris, pois não somos nenhum pouco
assim. Na verdade, todos que habitam o Norte são chamados de duendes (é a nossa
naturalidade), contudo nossa pele tem as mesmas cores de um humano comum e é não
verde, como alguns pensam por aí. Somos dotados em magia e é ela que permite,
ao nosso líder, viajar pelo mundo durante uma só noite.
Bom, não há mais nada a
explicar e podemos continuar a história. Como eu disse, contarei primeiro o que
aconteceu antes de sermos pegos.
Tudo começou, uma semana antes de invadirmos a fábrica do Noel, que,
aliás, é o meu pai.
Sete dias antes...
Os primeiros raios de sol começaram a iluminar meu quarto e só naquela
hora me lembrei de que não havia fechado a cortina. Levantei da cama e caminhei
até a janela para fechar a cortina. Ainda estava bastante sonolento, na verdade,
eu estava dormindo em pé.
– Pode deixá-la aberta, Noah. – disse uma voz ao fundo.
Antes que eu me virasse – para ver quem era – já havia reconhecido a
voz. Era Mary, ela estava sentada na poltrona que ficava em baixo da minha
estante de livros. Seus olhos castanhos dourados, seus cabelos da mesma cor e
sua pele clara começavam a receber os primeiros raios de sol. Ela sorriu para
mim, seu sorriso era lindo, mas eu não estava nenhum pouco a fim de sorrir de
volta. Havia ficado óbvio para mim, naquele momento, que havia sido ela a abrir
minha janela, alguns instantes antes da alvorada. Além disto, ela sabia o
quanto eu odiava ser acordado, ainda mais cedo. Fitei-a, por alguns instantes,
entretanto, seu sorriso sarcástico permanecia no rosto.
– Ah bebê... Não fique chateado, mas se as galinhas já acordaram, o Filho
Noel deve acordar com elas. – ela falou ironicamente e ao mesmo tempo com o
sorriso no rosto.
– Não me chame assim. – eu falei bastante irritado.
– Venha até aqui. – Mary falou caminhando até a porta do armário do
meu quarto, no qual havia um espelho que ocupava quase todo o espaço da mesma. Caminhei
até ela, que deu um passo para o lado, deixando somente o meu reflexo a vista. –
O que você vê?
Eu olhei meu reflexo e comecei a analisar minhas características
físicas, meu cabelo castanho-escuro, minha pele parda, meus olhos castanhos e
minha boca avermelhada. Notei que minha barriga estava um pouco vermelha e
continha marcas de alguns pequenos arranhões, provavelmente eu havia feito
durante o sono. Não pense que eu sou musculoso ou algo do gênero, mas também
não sou um magrelo. Tenho o corpo que chamo de normal.
– Vejo um belo rapaz com bastante
sono e muito irritado, porque o acordaram às seis da manhã. – eu falei devolvendo
a ironia.
Mary olhou pra mim com aquele olhar, de mãe quando está zangada com o
filho. Eu olhei para ela com o olhar mais doce que eu conseguia fazer e, então,
consegui sorrir para ela. Ela sorriu de volta, era bem nítido que ela não
estava zangada comigo. Mary e eu nos conhecíamos há bastante tempo para um
ficar muito tempo zangado com o outro.
A primeira vez que nos vimos, foi no primeiro dia de aula de ambos. Eu
estava brincando com os meninos enquanto ela estava sentada em um banquinho
lendo um livro, quando a bola com que jogávamos voou até ela e a machucou. Nós
três – Chris, Steven e eu – corremos até ela e, naquele instante, nos tornamos
amigos. Contudo, nos últimos meses, tem ficado mais difícil em vê-la somente
como uma simples amiga, mas eu irei guardar esse sentimento para mim, no
momento.
– Você é muito idiota, sabia? – Mary falou fingindo estar enfurecida.
– Bom, mas eu vejo um garoto muito bonito que receberá uma missão muito
especial, tal missão que muitos ficariam satisfeitos em tê-la.
– Então, esses “muitos” podem ficar com ela, porque eu não estou
nenhum pouco a fim de ser o próximo Noel. – eu a respondi me jogando na cama.
Mary me olhou novamente com aquele olhar de reprovação, caminhou até a
minha cama e sentou ao meu lado.
– Sério levanta... Seu pai falou que hoje começava o treinamento. –
Mary falou puxando o cobertor.
– Não! – a respondi, talvez,
com um pouco de grosseria. – Eu não quero ser o Noel. Por qual motivo eu iria
querer me tornar um símbolo ridículo para um feriado que o único sentido é o
comércio? As pessoas só se importam com o presente que vão ganhar e quanto ele
irá custar. Além disto, elas se matam aos montes por todo o mundo. O espírito
de natal morreu e está na hora do Papai Noel morrer junto.
– Eu não acredito que você está falando isso, Noah. – ela falou
incrédula.
– Acredite, pois eu não irei para esse treinamento hoje. – eu falei
com bastante convicção.
Mary ainda ficou me olhando durante algum tempo, mas depois me deixou
no quarto sozinho, sem falar absolutamente nada. Eu tive bastante vontade de
correr atrás dela, porém, o meu orgulho falou mais alto e eu permaneci deitado.
Não consegui voltar a dormir, a todo o momento vinha, em minha mente, à imagem
dela zangada comigo. Eu não consegui ficar por muito tempo na cama, quando o
relógio marcou 7h meu pai invadiu meu quarto para terminar de me acordar.
Meu pai era um homem alto, uns cinco centímetros mais alto que eu,
tinha cabelos pretos com mechas grisalhas e olhos da mesma cor que os meus, ou
melhor, eu tinha os olhos da mesma cor que os dele.
– Acorde! – ele falou abrindo a porta do meu quarto.
– Não estou a fim. – respondi ainda bastante emburrado.
– Não estou perguntando se você está a fim ou não. Agora levante, se
arrume e desça, porque você e eu iremos à fábrica de brinquedos.
Durante alguns instantes, eu o fitei com bastante raiva, mas contra
minha vontade tive que levantar. Fui até o banheiro, tomei banho, me vesti e
depois desci para a sala de jantar. Meus pais estavam sentados à mesa tomando
café, eu sentei sem olhar para meu pai, mas cumprimentei a minha mãe. Ela era
uma mulher bem bonita, seus cabelos eram castanhos bem claros, os olhos eram
verdes e a boca avermelha a qual eu puxei; para mim todo esse conjunto tornava-a
uma mulher muito bonita. Eu fiz meu dejejum sem falar com o meu pai, porém meus
pais conversavam bastante:
– Gael, você irá levar o nosso filho hoje à fábrica? – minha mãe
perguntou.
– Sim, mas contra a minha vontade. – eu a respondi antes que meu pai
pudesse respondê-la.
– Eu não estou com paciência para os seus surtos e mimos de
adolescentes hoje, Noah. Então faça o que eu estou mandando sem reclamar
permanecendo quieto. Meredith, você irá conosco?
– Não. – minha mãe o respondeu me observando, para ver se eu iria
respondê-lo a altura, porém eu me mantive em silêncio. – Eu tenho outros
assuntos a tratar. – ela concluiu com um singelo sorriso.
Após o café da manhã, meu pai e eu fomos até a fábrica, que para falar
a verdade eu já conhecia muito bem. Nós ficamos juntos o dia inteiro. Ele me
mostrou alguns papéis e como funcionavam alguns setores da fábrica. Muito se
perguntam, como o Papel Noel consegue viver se dá os presentes para as
crianças. Porém, vocês se esquecem de um simples detalhe. Nós somos duendes e
como eu disse antes, dotados em magia. Após o almoço, fomos até o setor da
fabricação de brinquedos.
– Não entendo o porquê de termos que presentear milhares de crianças
por todo o mundo. – eu falei ao entrar no setor que era gigantesco. Havia
dezenas de esteiras que fabricavam milhares de presentes, que meu pai chama de
genérico, aqueles que as crianças pedem aos montes e todos os anos.
– O criador nos escolheu para mantermos o mundo na paz, Noah. As
crianças são seres inocentes e repletos de paz. Nossa missão é mantê-las assim,
para que no futuro o mundo seja um lugar melhor. Pois ao darmos presentes
àquelas que foram boazinhas, incentivamo-las a continuar boas no futuro a serem
boas pessoas. – ele me explicou e pareceu ser sincero na resposta.
– Grande incentivo, hein. Você tem feito seu trabalho de forma excelente,
os adultos nem se matam aos montes, nem destroem a natureza. – eu ri com
ironia.
Meu pai trincou os dentes com raiva. – A questão não é essa, Noah...
– A questão pai, é que você faz isso há anos, o vovó fez isso por anos
e o pai dele também e o mundo continua o mesmo, ou melhor, ele só tem piorado.
– eu o interrompi e continuei andando pela fábrica.
Ele não veio atrás de mim e nem eu voltei para pedir desculpas. Não
queria vê-lo, não queria ouvi-lo, pois continuaríamos discutindo e, naquele
momento, só sentia raiva dele. Após a tarde juntos, finalmente fui liberto de
todos os afazeres e pude encontrar meus amigos. Ainda estava com bastante raiva
e tudo aquilo teria troco. Toda a ideia já estava começando a se formar em minha
cabeça. Agora, que conhecia perfeitamente cada canto daquela fábrica, seria
muito mais fácil me vingar.
Encontrei Chris e Steven na praça “dando
em cima” de algumas meninas. Nós, duendes, não somos tão diferentes dos
humanos comuns e quando chegamos à adolescência agimos como qualquer
adolescente comum.
– Olha, lá vem o Noelek. – Chris falou assim que eu me
aproximei. Ele era um garoto de tamanho médio (mais baixo que Steven e eu) com
a pele parda, cabelos pretos encaracolados e olhos castanhos bem escuros.
– O quê? – Steven perguntou confuso. Ele era um pouco mais alto que
eu, negro e com o corpo bem malhado. Seus cabelos eram bem baixos e cordados à
máquina, já seus olhos eram esverdeados.
– É a união de Noel e “lek”. – Chris o explicou.
– Alguém tinha que unir seus neurônios para ver se funcionam, pelo menos
juntos. – Steven retrucou sem paciência.
Ri bastante quando Steven o respondeu, mas rapidamente voltei, a minha
postura, para dizer a eles o que eu estava planejando. Primeiramente, eles
ficaram bastante surpresos com o meu plano e não acreditaram, no início, que eu
seria capaz de roubar a estrela de natal, somente para estragar o natal este
ano.
A estrela ficava guardada na fábrica, dentro do cofre, no escritório
do meu pai. Como somos uma sociedade pacífica, nunca houve problemas com
roubos, porém para tudo se tem a primeira vez. Eu expliquei a eles todos os
detalhes do que faríamos e pedi para que não contassem nada a Mary. Eles sabiam
o quanto eu gostava dela e eu sabia o quanto isso podia magoá-la.
Sete dias depois...
Era antevéspera de natal, tudo já estava pronto para a partida de meu
pai, que seria no dia seguinte. Contudo, eu estava determinado a fazer que este
ano não houvesse natal. Quando anoiteceu e a fábrica foi fechada, nós a invadimos.
Entramos calmamente no escritório dele.
Naquele instante, pensei que havia ganhado o jogo, que havia me
vingado. O que poderia dar errado? Em minha mente, ninguém sabia o que estava
acontecendo, era o plano perfeito. Idêntico àqueles de filmes pipoca. Porém,
quando eu estava abrindo o cofre, as luzes se acenderam. Na porta do escritório,
estavam meus pais e Mary, meus pais olhando para nós três enfurecidos e ela
olhando para mim decepcionada.
– Eu não creio que vocês vieram até aqui roubar a estrela de natal. –
meu pai disse furioso olhando diretamente para mim.
Eu continuei em silêncio, mas ele retornou a falar:
– Você realmente estava determinado a destruir o natal de milhares de
crianças, Noah? – perguntou incrédulo desta vez.
– Como o senhor descobriu?! – perguntei com raiva e ao mesmo tempo
confuso.
– Eu contei! Eu estava na pracinha e ouvi quando os três planejaram a
invasão desta noite. Depois, fui diretamente ao seu pai e contei tudo a ele. –
Mary me respondeu.
Fiquei absolutamente sem chão ao ouvir a resposta dela. A pessoa que
eu mais gostava no mundo, tirando a minha mãe é claro, havia me traído, havia
contado tudo ao meu pai. Porém, uma parte de mim sabia que isso poderia
acontecer, acho que foi por este motivo que eu não quis incluí-la em meu plano.
Eu a fitei por um momento, mas, logo depois olhei para meu pai com toda a raiva
e rancor que eu poderia sentir.
– Todos saiam, eu quero conversar a sós com o Noah. – meu pai falou
aos presentes.
Todos saíram sem hesitar, enquanto eles saiam, meu pai mantinha seus
olhos em mim e me olhava com bastante raiva. Eu já sabia o que estava por vim,
ele com certeza iria me castigar me mantendo alguns dias trancado em casa sem
poder ver meus amigos. Contudo, eu iria fugir para vê-los, como eu faço toda a
vez que ele faz isso.
– Eu não acredito que você chegou a este ponto! – ele gritou. –
Destruir o natal?! Você sabe o quanto ele é importante para várias pessoas? –
perguntou com muita raiva.
– Ninguém mais acredita no natal, pai. Ele se tornou um feriado
comercial, no qual as lojas de departamento e várias outras enriquecem vendendo
até a tua imagem, ou melhor, a imagem do Noel. Por qual motivo eu iria ser a
favor se um feriado ridículo como este?
– Porque ele faz parte de você, Noah! Ele é quem torna a pessoa que
você é. Fico muito desapontado em saber que você não se importa nenhum pouco
com o natal, em o que ele representa para todos os duendes e para todo o mundo.
– meu pai falou com bastante tristeza e pesar na voz.
– Não, não me importo. – falei sem demonstrar nenhuma emoção.
– Então, você passará a se importar, pois o seu castigo será ajudar
duas famílias a terem um feliz natal, porém não será qualquer família. Eu te
mandarei para o lugar certo, mas você deverá identificar qual pessoa é
realmente aquela que necessita de ajuda.
– Como é?! – perguntei a ele confuso.
– É o que você ouviu meu filho. Você irá ajudar aqueles que mais
precisam. E espero que seja rápido, pois você viverá o mesmo dia, todos os dias,
até encontrar a pessoa certa e ajudá-la de forma adequada...
Cont...

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