Um Boneco De Neve
Assim que meu pai terminou de falar, ouvi ao fundo algumas badaladas e
então tudo sumiu. Eu me sentia em um vazio completo, contudo algumas luzes
começaram a aparecer, como se fossem estrelas, o brilho emitido por elas ficava
cada vez mais intenso e acabei fechando meus olhos, pois a luz estava muito
forte. Quando voltei a abri-los, já estava em uma rua vazia à noite. Vários
lugares, que pareciam estabelecimentos, estavam fechados e não havia ninguém
pelas ruas. Exceto, por uma lojinha, no final da rua, que permanecia aberta.
Mesmo sendo véspera de natal.
Olhei para o lugar um pouco intrigado. Parecia ser um pequeno lugar,
para que mais de uma pessoa trabalhasse. A parte externa da loja – a qual
conseguia ver no momento – não estava decorada com enfeites natalinos,
diferente do restante da rua que possuía muitas luzes natalinas, essas
brilhavam com suas cores vivas. Alguns enfeites emitiam uma luz dourada, outros
um azul magnífico, mas ainda havia aqueles muito lindos de luzes coloridas.
– Olá... – uma voz sussurrou ao fundo.
Dei um pulo para frente com o susto que acabei levando. Quando olhei
para trás, vi uma garota baixa, com os cabelos pretos, mas que continham mechas
azuis e rosas. Seus olhos eram castanhos bem claros e um tanto grandes, sua
pele era um pouco parda.
– Que susto! – gritei no momento que dei um pulo para frente. – Você é
louca?! Como chega assim perto de uma pessoa? – perguntei no instante que me
virei e a vi.
– Nossa é assim que você fala com alguém que veio ajudá-lo? Você é um
grosso... – ela me respondeu, parecendo que estava fingindo ter ficado
ofendida, colocando a mão direita no peito esquerdo.
– Quem é você?! – perguntei curioso, não me importando se realmente
ela havia ficado ofendida ou se era uma brincadeira.
– Eu me chamo Anne e você é o Noah, o futuro Noel. – ela falou com um
sorriso. – Ah! Está desculpado. – ela riu, demonstrando realmente não ter
ficado ofendida.
– Não me chame assim! – gritei enfurecido. – Quando aquele lá morrer, essa coisa de Noel
irá acabar.
A garota começou a rir, como se eu houvesse contado a melhor piada que
ela já ouvira em décadas. Olhei para ela um pouco emburrado, mas pouco se
importou e continuou rindo.
– Posso saber qual é a graça? – perguntei chateado.
– Ser Noel não é uma escolha, é uma obrigação sanguínea. Você nasceu
predestinado a ser Papai Noel um dia, e quando a hora chegar, você será e tenho
certeza de que será um dos melhores. – ela me respondeu com um sorriso.
– Vem cá... Da onde você me conhece? – perguntei curioso.
– Ora, eu sou uma fada! – ela falou com um sorriso, colocando as mãos
na altura do rosto e girando os pulsos.
– Fadas existem?! – perguntei surpreso.
– É sério que eu ouvi isso? – ela perguntou para si mesma. – Uma
pergunta dessas, vindo de um duende que é filho do Papai Noel. – ela olhou para
mim, com um olhar sério.
– Tudo bem... Realmente foi uma pergunta idiota. – admiti. Era óbvio
que as fadas existiam, porém eu nunca me importei em conhecer o vilarejo que
elas moravam ou até as mesmas. Sempre vivi focado no meu próprio mundinho e
esqueci-me de olhar atentamente o que estava ao meu redor. Nós (duendes) e elas
(as fadas) sempre tivemos uma relação amigável, contudo por termos nossos
afazeres e elas os delas, nos mantemos em nossas cidades e pouco visitamos o
vizinho ao lado. – Em que dia estamos? – perguntei. Por um instante tive um
lapso de memória.
– Véspera de Natal, esqueceu? –
respondeu socando a minha cabeça. – Você está aqui para ajudar duas famílias a
terem um bom Natal. Bom, agora que nós já nos conhecemos, podemos também
iniciar o motivo no qual você está aqui.
– Onde começamos? – perguntei dando uma olhada pra a rua.
– Que tal o único lugar que está aberto, gênio? – Anne ironizou.
Bufei de raiva e comecei a andar em direção a pequena loja no final da
rua. Anne começou a me acompanhar, porém sem a nenhum momento para de
falar.
– Vêm cá, fadas não têm asas?! - perguntei com bastante
curiosidade.
– Ah! – ela exclamou. – Desculpe, que indelicadeza a minha... Eu devia
ter aparecido com as asas, para expor nosso mundo para todos. Contudo, só um
instante, eu irei tirá-las para que todos saibam que fadas e duendes existem! –
concluiu com bastante sarcasmo.
– Você realmente é louca... – falei levando a resposta dela na
brincadeira.
– E você é um gênio. – ela falou com um sorriso irônico no rosto.
Andamos até a lojinha do final da rua e entramos sem hesitar. Era um
lugar pequeno, com somente um freezer e uma mesa ao lado, que comportava uma
velha registradora. Atrás havia uma pia com um balcão, uma chapa para fazer
sanduíches e uma fritadeira em cima.
– Olá, boa noite. O que desejam? – uma mulher disse com um pouco de
tristeza na voz. Ela era alta, seu corpo tinha curvas cheinhas, seu rosto era
redondo, seus olhos e cabelos eram castanho-escuros. Sua boca fina e seu
aspecto mostrava uma pessoa cansada.
– É... – procurei alguma palavra poder respondê-la, mas nenhuma vinha
a minha cabeça naquele momento.
Meu cérebro havia congelado ao perceber a tristeza que aquela mulher
passava. Cada vez, começava a ficar mais nítido, para mim, que ninguém se
importava com o Natal. Aquela mulher deveria estar em casa, com a família,
comemorando, mas sua ambição a fizera trabalhar. O engraçado, que por mais que
eu sentisse que havia uma tristeza no fundo de seu coração, continuava a ter
raiva por ela está trabalhando numa data tão especial. Com certeza, a tristeza que eu sentia não
vinha dela, mas sim de vê-la trabalhando quando deveria estar em casa.
– Qual seu nome? – Anne perguntou a mulher, com um sorriso no rosto.
– Carmem. – ela respondeu com um singelo sorriso.
– Eu me chamo Anne e este é Noah. – ela falou meu nome apontando para
mim. Depois olhou para a tabela de preço, que havia na parede ao nosso lado. –
Nos venda dois refrigerantes, por favor.
– Claro. – Carmem respondeu. Ela caminhou até o freezer e pegou duas latas
verdes de um refrigerante de uma fruta chamada guaraná, tipicamente da região. –
Aqui. – falou nos entregando as latinhas do refrigerante.
Anne retirou do bolso de seu short uma nota arroxeada com o número
cinco estampado em sua face. Carmem
pegou o dinheiro e o colocou dentro da velha registradora, pegou uma moeda
prateada com o número 50 gravado e entregou a Anne. Ela me entregou uma das
latinhas do tal refrigerante de guaraná e nós dois saímos juntos da pequena
loja.
Caminhamos uns pequenos instantes até uma praça, quando enfim tomei
coragem de abrir a lata e consumir o líquido que havia em seu interior. O sabor
é muito complexo para descrever, era doce e sútil. A cor da bebida possuía um
tom de caramelo. Por fim, o gás contido não prejudicava o sabor, ao contrário,
o deixava mais realçado.
A praça era pequena, mas estava muito bem iluminada com luzes
natalinas. Por mais que pequena, ela continha seu charme. Havia: bancos, para
que seus visitantes sentassem; mesas, para poder passar o tempo com jogos e
conversa fora; brinquedos, para que as crianças brincassem por horas; e
diversas plantas, entre árvores e flores, que embelezavam o lugar.
Sentamos em um dos bancos e enquanto eu terminava o refrigerante, Anne
me encarava.
– O que foi? – perguntei assustado.
– Então, como vai ajudá-la? – ela me perguntou.
– Ajudá-la?! – perguntei confuso.
– Sim gênio! Você está aqui para ajudar duas famílias, lembra? – ela
me relembrou com um sorriso.
– Sim, mas por que seria aquela mulher? – perguntei fingindo não
saber.
– Você não percebeu que ela está triste por estar trabalhando hoje?
– Ela pareceu muito feliz por estar ganhando dinheiro, em vez, de
estar em casa com a família. – respondi como uma criança malcriada.
– O quê?! – ela perguntou incrédula. – Qual o seu problema, garoto?
Qualquer pessoa perceberia que ela não gostaria de estar ali agora.
Bufei de raiva e continuei sério. Eu não iria dar o braço a torcer.
Sabia que ela, a mulher, estava ali para ganhar mais dinheiro. Ninguém, que
fosse bom de coração, trabalharia na noite da véspera de natal. Passaria com a
família e amigos, celebrando o último feriado do ano.
– Pelo jeito você reviverá esse dia umas mil vezes até aceitar que é
ela é quem deve ser ajudada. Então, é só esperar o dia nascer de novo e você
verá que estou certa. – ela falou e se deitou no banco
– Ficará deitada aí no banco? – perguntei irritado, não tinha vontade
nenhuma de reviver esse horrível dia novamente.
– Ah! – exclamou fingindo estar surpresa. – Então vamos lá ajudá-la? –
perguntou com animação.
– Não! – respondi com raiva. – Vamos procurar quem realmente precisa
de ajuda. – a expliquei meu ponto de vista.
Anne sentou no banco e ficou me olhando por um tempo. Logo depois,
sorriu, levantou e estalou os dedos do braço direito.
– Eu não devia fazer isso, mas não quero passar mil anos ao seu
lado... – ela falou com um sorriso.
Tudo em nossa volta começou a retroceder, como um DVD que é rebobinado,
e quando parou, o dia estava começando a amanhecer. Nós dois não estávamos mais
na praça, mas, sim, defronte a uma casa pequena e muito bonita. Sua pintura era
da cor azul-celeste, em uma intensidade bem viva e na varanda havia diversas
plantas. A vizinhança também trazia casas simples, algumas melhor cuidadas do
que outras.
– Onde estamos? – perguntei olhando fixamente para a casa.
– Em frente à casa da Carmem, na manhã de véspera de natal. – respondeu.
Seus olhos brilhavam ao olhar para a casa. – Fofa, não?
– O que estamos fazendo aqui?! – perguntei confuso.
– Eu vim te mostrar que ela é uma das pessoas que você está destinado
a ajudar, futuro Noel.
– Já disse para você não me chamar assim. – falei irritado.
– Eu o chamo do jeito que eu quiser! Já cansei dos seus mimos... –
respondeu a altura.
– Você é muito abusada. – retruquei.
– E você é um mal agradecido! Contudo, não estamos aqui para apontar
os defeitos ou qualidade um do outro. Então, vamos entrar. – Anne falou
caminhando até a casa.
Corri atrás dela.
– Ela achará que somos ladrões e chamará a polícia. – falei segurando
o braço de Anne.
– É claro que não vai! – ela retrucou se soltando. – Porque ela não
nos verá, estaremos invisíveis aos olhos humanos. Agora vamos logo!
Caminhei atrás dela e nós entramos na casa, como dois fantasmas
passando pela parede. A casa era bem bonita por dentro, com diversos móveis,
além, de um aspecto bem aconchegante. Era uma sensação boa estar ali
dentro. Carmem apareceu na sala com o
rosto avermelhado e com lágrimas escorrendo. Ela sentou-se no sofá, enxugou as
lágrimas e respirou mais devagar.
– Mamãe! Mamãe! – alguém gritou ao fundo.
Quando nos viramos, vimos um garoto de uns cinco anos, com olhos e
cabelos castanho-escuros, as bochechas eram um pouco gordinhas e avermelhadas. Ele
vinha correndo pelo pequeno corredor da casa e tinha um largo sorriso no rosto,
porém quando avistou a mãe no sofá, o mesmo sorriso desapareceu.
– Você tá chorando? – ele
perguntou sentando, ao lado da mãe, no sofá.
– Não bebê... – ela mentiu. – É só um cisco que caiu no meu olho, mas
eu já o retirei. Filho, eu terei que levá-lo para a casa da sua tia hoje. Tenho
que trabalhar. – explicou a ele
segurando o máximo para não chorar.
Nós dois assistíamos a cena, em silêncio e muito atentos a cada
detalhe.
– Eu pensei que a senhora ficaria comigo hoje. – o menino disse bem
triste.
– Era o que eu queria, mas o patrão da mamãe não quer fechar a loja e
eu tenho que ir. – falou passando a mão no rosto do menino. – Se arrume, para
eu possa levá-lo. – completou com uma grande tristeza na voz.
– Não quero ir! – o menino falou aborrecido.
– Por favor, filho. Seja
bonzinho ou o Papai Noel não irá trazer seu presente.
– Tudo bem, mamãe.
Desculpe! – o menino falou com a
voz mais passiva e se retirou da sala indo para o seu quarto.
Aquela cena, para mim, havia sido muito triste, mas naquele momento,
eu não quis admitir. Tudo então começou a avançar e quando percebi, nós estávamos
de novo na praça. Anne voltou a sentar no banco e ficou me olhando.
– Vai ficar sentada aí ou vai me ajudar? – perguntei.
– Vou. – ela respondeu e depois começou a rir. – É claro que vou te
ajudar.
Ela levantou do banco e começou a caminhar comigo em direção à pequena
loja. Nós andamos o caminho inteiro em silêncio e só quando chegamos à loja, ela
voltou a falar.
– Então, como pretende ajudá-la? – Anne me perguntou assim que
chegamos defronte à loja.
– Você pode nos tornar invisíveis? – perguntei com bastante esperança.
– Posso. – ela respondeu e depois estalou os dedos, nos tornando
invisíveis aos humanos.
Comecei a andar e ela me acompanhou. Nós entramos, passando pela
parede, e eu caminhei até os fundos da loja. O lugar era tão apertado quanto à
parte dianteira do estabelecimento, lá também estava um tanto empoeirado e suas
paredes possuíam cor pastel.
– Como você pretende ajudá-la daqui e invisível? – Anne me perguntou
confusa.
– Você verá. – eu a respondi e sentei no chão.
Fiquei sentado observando Carmem. Depois de algumas horas, o patrão
dela voltou pra fechar a loja. Ele era um homem baixo e magricela, os cabelos
grisalhos com uma entrada bem grande.
Anne ficou perplexa ao ver-me fazer nada a noite inteira e não parou
de resmungar, contudo eu fingia não a escutar, deixando-a falando sozinha a
noite inteira. Quando o dia amanheceu, me levantei e olhei para ela sorrindo.
– Pode me tonar visível? – perguntei com um sorriso.
Anne me olhou confusa e estalou os dedos me tornando visível novamente.
Voltei para o início da loja e caminhei até a parede que estava com a tabela de
preços. Em cima dela havia uma caixa de força, eu a abri, arranquei os fusíveis
e a fiação que havia ali dentro.
– Você ficou maluco?! – Anne me perguntou incrédula.
– Sem energia isso aqui não pode funcionar. – eu a respondi. – Agora
nos torne invisíveis novamente, por favor.
Anne estalou o dedo novamente e nos dois saímos da loja.
– Agora, observe. – falei para ela com um sorriso.
Ficamos de frente a loja observando. Depois de algum tempo, o dono dela
chegou e, em alguns instantes depois, foi à vez dela chegar. Ele a avisou que a
loja não seria aberta e ela poderia voltar para casa. O homem estava furioso,
gritava e berrava o mais alto que conseguia. O prejuízo que eu havia dado a ele,
por destruir sua caixa de força, foi enorme.
– Vamos. – falei.
– Aonde?! – Anne me perguntou confusa.
– Segui-la.
Seguimos Carmem pelas ruas. Ela caminhou até uma casa bem grande e
elegante, falou com uma mulher alta e ligeiramente magra, de cabelos loiros e
olhos verdes. Carmem e a mulher entraram na casa e, depois de alguns minutos, ela
saiu acompanhada de seu filho. Eu e Anne continuamos seguindo-a e vimos que
durante o dia inteiro, ela passou com o filho. O mais provável que também
passaria ao lado dele a noite de véspera. O natal daquela família seria muito
feliz. Naquele instante, pude perceber que o dia ainda é importante para alguns.
– Vamos à próxima? – falei empolgado.
– Claro! – ela respondeu com um sorriso e estalou os dedos.
Cont...

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