Do Que Vale Amar?

Capítulo Oito: Brigas?


Depois daquela noite, tudo mudou para Laryssa, ela não se sentia mais a mesma, ela não era mais a mesma. No início, um sentimento de culpa e de medo ocupava seu peito, mas isso passou nos dias que se sucederam. Erick, por outro lado, sentia-se maravilhoso, ele havia conseguido o que queria e queria realizar novamente.

Já Vincenzo e Marcela estavam meio que “juntos”. Em um “quase namoro”. Vivam juntos, iam para o cinema, passavam horas trocando mensagens de texto pelo celular (havia dias que eles conseguiam passar das mil mensagens), sentiam ciúmes um do outro, mas não tinham coragem de dar o passo e pedir ao outo em namoro.

Em uma tarde de terça-feira, enquanto Vincenzo jogava futebol com os amigos, Marcela, Leandro, Laryssa, Marcos, Thayza e Pietro ensaiavam para a grande apresentação.

Lindinhos, tenham mais concentração! Vocês estão muito descoordenados. — disse Luciana e todos pararam. — Cinco minutinhos de descanso e já voltamos.

Todos caminharam até suas mochilas. Marcela pegou seu celular e voltou a trocar mensagens com Vincenzo. 

 

Vincenzo: fazendo o que, gatinha?

Marcela: Estou na aula de dança. A ponto de enlouquece. E você o que está fazendo por aí?

Vincenzo: To indo pro banho. Eu tava jogando bola com os moleques, daí to suadão.

Marcela: Aí que nojinho seu porquinho!

Vincenzo: Sou limpinho, vem cá cheirar para você ver.

Marcela: É porquinho sim. Sai daí, deve tá todo fedido.

Vincenzo: Sou não.

Marcela: É sim. Depois a gente se fala tenho que voltar para a aula. Beijos, porquinho.

Vincenzo: Até mais tarde, gatinha. Beijos!

 

Enquanto Marcela se divertia trocando mensagens com Vincenzo, os outros olhavam para ela atentamente.

— Consegue deixar esse telefone de lado e falar conosco ou está difícil? — perguntou Leandro com um sorriso.

— Ih, Léo, esquece! Ela deve estar falando com o namorado. — disse Laryssa.

Marcela deu uma risada de deboche e a respondeu. — Eu não tenho namorado!

— Desculpe, amiga, mas depois que você passa das mil mensagens diárias com alguém já não é mais amizade. — Laryssa a informou.

— Isto não tem nada a ver. — retrucou Marcela. — Troco mais de mil mensagens por dia com você também.

— Mas, somos amigas, já você e Vince são praticamente namorados. Só falta se pegarem.

Todos riram.

— Deixa de bobagem! — Marcela falou envergonhada. — Porque ele e eu somos somente amigos.

— Como ele é, cela? — Thayza perguntou. Uma menina de olhos azuis, cabelos longos e loiros, pele branca e 1,51 m de altura.

— Aqui! — Marcela falou enquanto mostrava uma foto de Vincenzo.

— Viu! Tem até foto dele no celular.  — disse Laryssa.

Thayza pegou o celular da mão de Marcela e ampliou a foto para observar Vincenzo com mais detalhes. Na fotografia, o rapaz estava em uma cabine de avião, possuía um sorriso largo e um brilho indescritível nos olhos.  

— Ah! — exclamou Thayza. — Gato desse jeito até eu teria.

Marcela ficou vermelha com o comentário feito por Thayza e levemente enciumada. — Também não é para tanto. Ele é arrumadinho apenas. — Falou tomando o telefone da mão da colega.

Laryssa gargalhou.

— Calma, celinha. Não precisa ficar com ciúmes. — Thayza riu.

Lindinhos, vamos continuar? — Luciana perguntou ao chegar à sala. Ela havia falado em apenas cinco minutos de intervalo, porém levou um pouco mais de tempo para retornar.

Eles não responderam, direcionaram-se para o centro da sala e voltaram a ensaiar.

Depois que o ensaio terminou, os seis saíram do estúdio e foram até a sorveteria que ficava ao lado, sentaram-se em uma mesa e passaram alguns minutos conversando. 

Após o sorvete, todos se despediram um abraço e um beijo no rosto. No momento em que Laryssa estava se despindo de Leandro, Erick chegou e a viu abraçando-o.

— Que palhaçada é essa? — Erick falou aproximando-se deles e empurrando Erick.

— Erick! — Laryssa gritou incrédula.

— Qual é, irmão? Tá ficando maluco? — Leonardo falou retrucando o empurrão.

— Rapazes, não. — Marcela falou se colando entre os dois, acompanhada pelos demais rapazes que seguraram Leandro.

— Olha aqui, não quero ver mulher minha agarrada com outro macho por aí. Tá ficando maluca? — Erick falou grosseiramente segurando Laryssa pelo braço com força.

— Você está me machucando. — Laryssa falou tentando se soltar.

— Solte ela, Erick. Deixe de ser idiota, somos dois colegas da aula de dança. — Marcela falou de forma ríspida.

— Solte-a, irmão. Senão, quebro a tua cara. — Leandro tentou avançar, mas foi segurado pelos demais amigos.

— Ah! Então ele é uma bonequinha do balé. — Erick falou rindo em tom de deboche e soltando o braço de Laryssa.

— Quer que te mostre a bonequinha, palhaço? — Leandro rebateu. 

— Prefiro distância. ¨Vamo¨ embora daqui. — Erick falou segurando Laryssa pelo braço e arrastando-a pela rua.

 Durante o caminho, nem Laryssa, nem Erick tocaram no ocorrido. O braço da menina estava um tanto avermelhado pela forma que ele a segurou e a cara dele completamente fechada, em puro ódio. 

Na sorveteria, o ¨climão¨ foi instaurado, Leandro falou alguns palavrões a respeito de Erick, contudo, Marcela não quis continuar o assunto, era algo que precisava conversar apenas com a amiga. Enquanto espera pelo seu pai, voltou a trocar mensagens com Vincenzo. E cada mensagem recebida, era um sorriso mais aberto que se estampava em seu rosto.

 

Marcela: Já tomou banho, porquinho?

Vincenzo: Já, minha patricinha! Está tudo bem? Sua aula já terminou?

Marcela: Pare de me chamar de patricinha. Estou bem, sim. Aconteceu uma situação aqui, mas já superamos. E sim, minha aula já acabou.

Vincenzo: O que aconteceu? Você está bem? E não, patricinha.

Marcela: Nada! Esqueça! E deixa de ser ridículo. 

Vincenzo: Não.

Marcela: Idiota!

 

Após alguns minutos, o pai de Marcela enfim chegou para buscá-la. Assim que entrou no carro, fez o seu velho e pontual ritual e em silêncio foi para casa.

 

●●●

 

Vincenzo e Marcela continuavam a passar horas no telefone conversando. Assim que chegavam da escola, ficavam trocando mensagens até tarde da noite e aos fins de semana, quando não iam a algum lugar passear, estavam conversando. 

Até mesmo na sala de aula eles trocavam mensagens. O que irritava a Laryssa, que já não aguentava mais ver a amiga trocar aquelas “malditas mensagens” o tempo inteiro. Marcela tentava argumentar que ela não deveria ser injusta, pois todo o seu tempo livre era usado em prol do Erick. 

A garota estava sempre com o namorado e depois que havia iniciado o relacionamento, pouco saía com a melhor amiga e com demais amigos. Ele não a deixava um minuto só. Andavam pela escola sempre juntos para cima e para baixo. O único momento em que não estavam juntos, era na sala de aula, única e exclusivamente em razão dos professores terem proibido que se sentassem juntos. 

Durante os intervalos, e, em todas as oportunidades que tinha, Erick a arrastava para lugares escondidos na escola para poderem ficar mais à vontade. Em algumas situações, eles já haviam até chegado a transar. Como o uniforme das garotas era composto de uma blusa social branca e um saião azul-marinho, bastava apenas levantá-lo para tornar qualquer ato possível.  Diversas vezes, ela nem sequer estava com vontade de fazer, todavia, sentia-se na obrigação de agradá-lo.

 

●●●

 

Em uma tarde de ensaio, enquanto Marcela ensaiava seu número com Leandro, Laryssa pegou o celular dela e fingindo ser ela, enviou uma mensagem para Vincenzo pedindo para ele ir buscá-la. O garoto em menos de um minuto respondeu aceitando o pedido. Então, ela apagou as mensagens trocadas e devolveu o aparelho para a mochila da amiga, certificando-se de que Marcela não havia percebido o que havia feito.

Enquanto Vincenzo estava a caminho do estúdio — que ficava próximo a sua casa — Luciana começou a ensaiar os beijos que iriam acontecer no final das danças. Como Marcela pediu um tempo para recuperar o folego e beber um pouco de água, ela começou por Thayza e Pietro, deixando a garota para o final. 

Vincenzo rapidamente chegou ao estúdio e quando abriu a porta, deparou-se com Marcela e Leandro se beijando.  Assim que viu aquela cena, o garoto deu meia volta, fechou a porta com força e saiu do local enfurecido. Laryssa desesperou-se ao perceber que poderia ter estragado tudo com um absurdo e gigantesco mal-entendido. Todos se assustaram e correram atrás dele para saber o que havia acontecido.

Vince, pare! — gritou Luciana enquanto o rapaz passava pela porta do estúdio.

Ele parou e se virou para olhar diretamente para ela. — Oi! — falou rispidamente. 

— O que houve? — ela perguntou pondo a mão no ombro dele, completamente confusa.

— Nada! — ele a respondeu olhando. — Parece que apenas vim até aqui fazer papel de idiota. —  concluiu olhando para Marcela. Antes que a garota pudesse se aproximar, ele se virou e foi embora.

Marcela correu até sua mochila e começou a enviar mensagens para Vincenzo, questionando-o sobre o que havia acontecido. Entretanto, ele não respondeu a nenhuma das mensagens enviada e quando ela ligou, ele recusou a ligação e desligou o aparelho.

Nos dias que se sucederam ele nem sequer olhava para a cara dela. Todas às vezes que ela chegava perto dele, ele saia do local, deixando-a sozinha.

Laryssa estava tão envergonhada, sentindo-se tão culpada, que não havia ainda conseguido contar para a amiga que todo aquele mal-entendido era sua culpa. Marcela por diversas vezes chorava escondida atrás da escola com amiga que tentava fazer o possível para consolá-la.

Após algumas semanas, em uma tarde quente de domingo, Vincenzo estava em casa jogando videogame com seu primo Daniel, quando voltou a receber mensagens de Marcela, que insistente, ainda tentava reverter toda a situação.

— Primo, não para de chegar notificação no seu celular. Não quer dar uma olhada? Pode ser algo importante. — Daniel falou sem tirar os olhos da partida de Fifa que eles jogavam.

— Ah! Não se preocupada, provavelmente é mensagem de uma garota insistente aí! — Vincenzo respondeu.

— Deixando as novinhas doidas, é? Tá pegando? ­— Daniel perguntou rindo e dando um leve empurrão em Vincenzo com o ombro.

— Não! — Vincenzo respondeu de forma séria e grosseira.

— Eita! — Daniel exclamou. — Ela é feia? Não gosta dela?

— Do contrário, ela é linda e eu sou amarradão nela, mas me fez de trouxa.

— Fez? — perguntou Daniel zombando. — Pensei que você sempre fosse.

Vincenzo riu. — Babaca!

Daniel também riu. — O que ela fez cara?

Me mandou uma mensagem pedindo para ir buscá-la na aula de dança, só para vê-la beijando outro babaca lá.

Porra que mancada! — Daniel compadeceu com o primo. Mas, talvez, seja apenas um beijo técnico. Não?

— Que técnico o quê. Ela faz aula de dança, não de teatro.

— Mas, cara, acho que isso não tem nada a ver. — Daniel tentou contornar a situação e fazê-lo pensar.

— Quer trocar de assunto e retornar à prestação no jogo? — Vincenzo o respondeu fazendo um gol na equipe do primo.

Daniel calou-se e não retomou mais o assunto naquela tarde. E ambos continuaram a partida em completo silêncio.

Na aula de dança, Marcela observava seu telefone desapontada e com muita dor, segurando-se para não chorar tomou a decisão de não insistir nunca mais. 

Cela, é melhor dar um tempo não acha? Deixa ele esfriar a cabeça e toda essa situação passar. Melhor coisa é o tempo. — Leandro falou sentando-se ao lado dela e segurando sua mão.

— Ele me viu te beijar e deve tá confundindo toda a situação. Por que ele tinha que aparecer aqui do nada? Não consigo entender. — ela falou inconformada.

— Entendo, desculpe. — falou tentando consolá-la. 

— Ah! Não é sua culpa, Léo, faz parte da apresentação. Ele que é um idiota e não me deixa sequer explicar.

— Ela tem razão, Léo. Na verdade, quem tem culpa sou eu. — Laryssa falou completamente envergonhada.

— Do que você está falando, amiga? Ninguém tem culpa. —  Marcela falou confusa.

Laryssa respirou fundo e buscou em seu interior alguma forma de pôr para fora todo aquele segredo que vinha guardando há dias. — Eu que mandei uma mensagem para ele, pelo seu celular, fingindo ser você, e, pedindo para vir te buscar. Depois apaguei as mensagens antes que você percebesse.  falando para ele ir te buscar. — ela confessou.

Marcela levantou com raiva e incrédula. — Laryssa! — gritou Marcela.

 — Desculpe, amiga, eu não fazia ideia de que a Luciana ia incluir beijos técnicos no final das danças e começar a ensaiá-los naquela hora. Eu não te falei nada antes porque não sabia como explicar toda essa situação. — Laryssa justificou-se. — Me perdoa. 

Marcela respirou fundo e olhou para cara de ¨pidão¨ que a amiga fazia. Eram amigas há muitos anos e não conseguia guardar raiva de Laryssa. — Tudo bem! — falou com um sorriso de canto de rosto. 

Laryssa a abraçou e voltou a sussurrar no ouvido da amiga pedidos de desculpas.

— Meninas, a cena está linda, mas tenho que ir. — Leandro falou interrompendo-as.

— Tá bom. — falaram juntas. 

— Vou com você até lá embaixo, estou louca para ir ao banheiro. — Laryssa falou deixando a amiga sozinha, que voltava a encarar as mensagens enviadas para Vincenzo sem resposta.

Ela o acompanhou até o térreo do prédio, onde ficavam os banheiros e despediu-se dele com um abraço. No exato momento, Erick entrou no prédio e viu novamente toda aquela situação. 

— Já não disse que não te quero abraçando macho por aí. Até porque tenho dúvidas do time que essa bonequinha aí joga. — disse Erick emburrado.

— Deixa de ser infantil e preconceituoso, Erick. Ele é meu amigo, e eu só estava me despedindo dele. — ela o respondeu irritada.

— E para se despedir tem que abraçá-lo? Não conhece o aperto de mão? Os japoneses, por exemplo, nem se tocam.

— Tá bom, Erick. Melhor, nem começa com o seu show. — ela concluiu irritada.

Show? Quer saber, pede ao amiguinho para te levar para casa. Cansei. — Erick falou irritado, virou-se e foi embora.

Dessa vez, Laryssa segurou-se para não correr atrás dele. Já se sentia cansada de alguns ataques de ciúme que ele tinha.

 

●●●

 

Na terça seguinte, Marcela e Vincenzo continuavam sem se falar. Ambos sentiam muita falta um do outro. Ela já havia parado de tentar justificar-se e ele já tinha até consigo superar em parte o que havia ocorrido, mas o orgulho era mais alto. 

Erick e Laryssa já tinham feito as pazes. Contudo, o ciúme de Erick apenas crescia a cada dia que passava. Ele nutria cada vez mais um ódio em relação a Leandro, não suportava sequer vê-lo em sua frente.

Luciana percebeu que naquele dia a turma estava muito dispersa e errando passos já superados. 

— Vamos, lindinhos, onde está a animação de vocês? Faltam vinte dias para a estreia e vocês estão errando detalhes bobos. Conheço o potencial de cada um aqui. — Luciana desapontada com a turma.

— Desculpe, Luciana… — Marcela fez uma pausa. — Eu não estou com cabeça hoje. — falou e saiu da sala correndo direto para o banheiro, entrou em uma cabine e desabou em chorar.

Percebendo a demora da amiga Laryssa saiu da aula para procurá-la.

Cela! — gritou Laryssa. — Cela! 

Marcela não respondia e continuava a chorar. Laryssa pôs a mão na porta da cabine em que ela estava e o sentimento de culpa invadiu seu coração. 

— Amiga, não chora. Venha. — Laryssa falou tentando confortá-la.

Marcela abriu a portada cabine e olhou a amiga nos olhos. — Tenho tentado ser forte, mas não consigo mais. Eu o amo, lally. De verdade. — ela galou aos prantos.

— Eu sei amiga, eu sei. — Laryssa falou secando as lágrimas da amiga.

Marcela a abraçou com força. Elas ficaram conversando durante um tempo, até Marcela conseguir se recompor e ambas poderem voltar para a aula. No momento em que as meninas estavam saindo do banheiro, Laryssa começou a sentir-se tonta e em poucos segundos desmaiou.

Comentários

Postar um comentário