Do Que Vale Amar?
No mesmo instante que ela caiu, ele abaixou-se para ajudá-la a se
levantar. No entanto, quando tentou, estendendo a mão direita, ela foi fria,
grossa e arrogante; deu-lhe uma tapa em sua mão e o empurrou.
— Não olha por onde anda, idiota?! — Marcela perguntou furiosa colocando
a mão no rosto para verificar se havia se machucado.
— Desculpa! — falou assustado. Seus olhos esbugalharam. — Eu não te vi…
— Vincenzo tentou responder, mas ela o interrompeu.
— Como não me viu?! — Marcela perguntou surpresa. — Por acaso, você é
cego? — ela falou com grosseria, franzindo as sobrancelhas.
Vincenzo ficou indignado com a forma que ela o tratou. Ela nunca o vira
e da maneira mais rude, dirigiu-se a ele.
— Olha aqui, garota! — falou segurando o braço direito de Marcela com
firmeza, mas não com força. No mesmo momento, ela tentou se soltar. — Eu não vi
você! Ok? Desculpe. Mas, eu estava com pressa para não entrar atrasado! Foi
mal se te empurrei… — ele concluiu com a voz um pouco alterada.
Vincenzo soltou o braço de Marcela e a olhou nos olhos. No instante que
olhou, notou um pouco de medo ou, talvez, indignação pela forma que a
enfrentou. Saiu da frente dela, empurrando-a para o lado e sentou-se na última
cadeira, da fileira ao lado da porta. Não conseguia prestar atenção na aula, o
tempo todo se lembrava do ocorrido e pensava como ela era tão arrogante.
Enquanto a aula passava, ela e sua melhor amiga, Laryssa, conversavam
enquanto copiavam a matéria que o professor de literatura escrevia no quadro.
Laryssa era uma garota mais baixa que Marcela, provavelmente, deveria ter menos
de 1,60 m de altura. Os cabelos eram loiros, iam até seus ombros, eram cheios e
ondulados. Seus olhos eram castanho-claro.
Falavam sobre o festival de dança que aconteceria em junho no estúdio de
dança que ambas faziam aulas de balé. Estavam bastante ansiosas, porém Marcela
não conseguia somente prestar atenção na conversa. Em sua mente, lembrava-se do
que havia acontecido há poucos instantes. Sim, estava pensando nele, mas não
estava pensando bem ou idealizando um bom garoto. Estava com raiva pela forma
em que ele havia a tratado. Nunca havia sido tratada daquela maneira. Os
garotos sempre a cortejavam, nunca haviam a respondido de tal forma.
— Nossa, celinha, que cara é essa? — Laryssa perguntou
intrigada.
— Nada! — ela a respondeu emburrada.
— Aham, eu sei o “nada” … — a amiga falou fingindo
acreditar. — Me conta o que houve?
— Já disse que não aconteceu nada. — respondeu irritada.
— Tudo bem então! — a amiga a respondeu e em seguida mudou de assunto.
Já Vincenzo, não se preocupava mais com o que havia acontecido. Sua
mente não esquecia do olhar dela, da expressão de surpresa quando a enfrentou,
de quando precisou ser ríspido. Pensava em como ela era mimada e, ao mesmo
tempo, tão linda. O brilho dos olhos, o vermelho da boca. Não se importava com
o que ela havia falado. Gostava deste tipo de meninas, gostava de
conquistá-las. Para ele, as “patricinhas” eram muito especiais e sabiam
ser mais amorosas e carinhosas do que as outras garotas.
As primeiras aulas passaram e no final da manhã, teriam a de educação
física.
Assim que chegaram à quadra, a professora propôs um jogo de queimada, em
que a pessoa que fosse queimada teria que ir ao centro da quadra e se
apresentar para todos. Pelo acaso, os capitães escolhidos foram Marcela e
Vincenzo. As equipes estavam bem distribuídas e não havia aquela que estivesse
fraca ou desfavorecida. Ambas estavam bem alinhadas e prontas para o combate.
Ficaram todos em suas posições e a professora chamou os capitães para o
velho cara ou coroa. Entretanto, antes que ela pudesse escolher um lado da
moeda, Vincenzo falou:
— Pode deixar a bola com ela, professora! Sou um cavalheiro… — falou
entregando-a a bola com um sorriso. — Mas, gatinha, tome cuidado para
não quebrar uma unha. Tá bom? — ele terminou com bastante ironia
piscando.
— Pode deixar! Terei muito cuidado quando for mirar na sua cara. —
retrucou com um sorriso mais irônico.
Marcela começou o jogo. A primeira pessoa que tentou acertar foi
Vincenzo, mas ele desviou com facilidade. Pegou a bola no fim da quadra e a
arremessou em um garoto que estava ao lado dela, queimando-o. Após olhou para
ela e sorriu.
Ela o olhou surpresa, porém, tão logo mudou o olhar para irritada. O
garoto queimado foi até o meio da quadra e se apresentou, da forma que a
professora havia instruído, e, por fim, sentou-se na arquibancada que pertencia
ao lado da equipe de Marcela.
— Sua vez novamente, gatinha. — ele falou rindo.
Marcela bufou e voltou a pegar a bola. Contudo, dessa vez, entregou-a a
Erick que, com bastante cuidado, mirou em Vincenzo.
Erick era um garoto bastante atlético. Possuía o cabelo da cor de mel e
os olhos seguiam pela mesma. Usava aparelho odontológico e era um ano mais
velho que Vincenzo.
A bola arremessada foi facilmente desviada por Vincenzo que sorriu ironicamente
para o adversário.
Laryssa — que estava na equipe de Vincenzo — pegou a bola e mirou em
outra garota, queimando-a. Era incapaz de jogar na melhor amiga.
Conforme o jogo avançava, jogadores de ambas as equipes iam sendo eliminados
e obedeciam ferreamente à regra da professora. No fim, só restaram Erick e
Marcela de um lado contra Laryssa e Vincenzo do outro.
Erick estava com a posse da bola, tentou mais uma vez acertar Vincenzo
que a agarrou firmemente e eliminou o rival.
Como a equipe de Marcela havia perdido um jogador e ela estava sozinha,
a professora pediu que lhe fosse dada a posse da bola.
Ela olhou para a melhor amiga, pediu desculpas e, com força, jogou a
bola, acertando-a na barriga e eliminando-a. Laryssa foi até o centro da
quadra, com um pouco de dor, apresentou-se e se sentou na arquibancada ao lado
de Erick.
Assim, acabou restando apenas os capitães que se encaravam para a rodada
final da partida. Ela o fitava com raiva e determinada a vencê-lo, enquanto
ele, não fazia nenhuma questão de esconder o grande prazer que toda aquela
situação o proporcionava. Em seu rosto estava estampado um enorme sorriso. Essa
era a grande final. De um lado Marcela e do outro Vincenzo, ambos prontos para
queimar um ao outro…
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