Do Que Vale Amar?
Começou a grande final do jogo de queimada. A posse da bola era de
Vincenzo, porém mais uma vez como ato de “cavalheirismo”, ele cedeu a bola à
Marcela, deixando-a iniciar a partida novamente. Ela a pegou com um sorriso,
mas estava morrendo de ódio por dentro, segurou-a com força e a atirou nele.
Conforme ela atirou, a bola acabou quebrando uma unha e indo parar muito longe
do alvo.
— O que foi gatinha, quebrou a unha? — Vincenzo falou
debochando da situação, ele estava se divertindo com tudo.
Marcela não o respondeu, mas o fitou com ódio e sorriu sarcasticamente.
Ele não se importou para o modo que ela o olhara. Foi até o canto da
quadra, onde a bola havia parado, pegou e a mirou nela. A quadra toda estava em
silêncio e do lado de fora, havia dezenas de alunos, de vários anos, prestando
atenção no jogo. Vincenzo a levou para trás da cabeça e a jogou com força para
o outro lado da quadra, passando bem longe da adversária. Todos perceberam que
foi intencional, inclusive Marcela, mas ela fez questão de devolver o
comentário que o colega havia realizado instantes antes:
— Gatinho, o que foi? Perdeu a mira? — perguntou
ironicamente com um sorriso largo no rosto.
Vincenzo não a respondeu, mas mordeu o lábio e riu com um sorriso bem
cafajeste. Marcela foi até a bola, pegou-a, mirou bem no rosto dele e a atirou
com bastante força. Ele a segurou muito próximo ao seu rosto. Daquele jeito,
ele estava ganhando o jogo, mas antes que a professora apitasse e lhe desse a
vitória, ele a deixou cair propositadamente, dando-lhe a vitória. Todos olharam
aquela cena sem reação, ninguém havia entendido o que acabara de acontecer e
até mesmo Marcela o olhava espantada.
No entanto, Vincenzo caminhou até o centro da quadra.
— Meu nome é Vincenzo e eu tenho dezesseis anos. — disse o garoto se
apresentando.
A professora conseguiu entender o que acabara de acontecer, então desceu
da arquibancada, deu a vitória à Marcela, colocou uma medalha de prata em
Vincenzo, chamou Laryssa e nela pôs uma medalha de bronze. Depois chamou
Marcela até o centro da quadra, colocou no pescoço dela a medalha de ouro,
perguntou o seu nome e a idade (porque, os professores do ensino médio, naquele
colégio, não davam aula ao fundamental II e vice-versa), após isso, levantou o
braço esquerdo da menina e disse:
— Esta é Marcela, ela tem catorze anos e é a campeã do queimado da turma
1A!
Todos a olharam e a aplaudiram, inclusive Vincenzo que tinha no rosto um
enorme sorriso de felicidade. Ele havia sido derrotado, mas estava
feliz. Essa era uma das boas qualidades dele, pois sabia a hora que
havia sido derrotado e sabia aceitar a derrota. A equipe de Marcela vibrava. Mesmo
somente tendo ganhado a medalha, a equipe inteira se sentia vencedora. Vincenzo
foi até Marcela e a cumprimentou pela vitória:
— Parabéns, gatinha! — falou estendendo a mão,
cumprimentando-a.
Marcela apertou a mão dele e respondeu. — Obrigada!
Ela pegou suas coisas e foi para o vestiário, onde poderia tomar banho e
trocar a roupa suada.
Vincenzo também decidiu tomar banho para retirar o suor e poder trocar
de roupa. Após o banho, enquanto trocava de roupa, Erick foi até ele para
conversar sobre o jogo:
— O que foi aquilo na quadra?
— Não sei do que você está falando… — Vincenzo respondeu
confuso.
— Estou falando de você ter dado à vitória a Marcela.
— Não dei vitória a ninguém! Ela ganhou por mérito próprio. — disse
Vincenzo sorrindo. — E não sei do que você está reclamando, seu time
venceu! — falou um pouco confuso.
— Não estou reclamando, só não quero você perto da celinha ou…
— ameaçou Erick.
— Ou? — Vincenzo perguntou confuso. — Acha que tenho medo de você? Se
manca! Pelo acaso ela é a sua namorada?
— Não, é somente minha amiga. Mas, se mexer com ela, irá se ver
comigo…
Vincenzo riu.
— Acha que estou blefando? — Erick falou irritado.
— Acha que tenho medo de você? — Vincenzo retrucou. — Olha aqui, é bom
você ficar na sua e não se meter no meu caminho…
Vincenzo o empurrou e saiu caminhando calmamente pelo vestiário que,
logo ficou lotado de garotos para assistir à discussão dos dois rapazes. O
jovem voltou para a quadra, pegou a mochila que havia ficado na arquibancada e
notou que ela parecia estar mexida. No mesmo instante, ele a vasculhou para
saber se estava faltando algo, mas não sentiu a falta de nenhum objeto, guardou
tudo de volta e foi até a diretoria pegar uma declaração para levar ao seu pai.
●●●
Ambas, Laryssa e Marcela, saíram do vestiário e caminharam até o portão
da escola, onde Marcela esperava pelo pai que iria buscá-la. As duas
conversavam intimamente, porém no instante que Erick se aproximou, elas
cortaram o assunto. Marcela o olhou e sorriu forçadamente, enquanto os olhos de
Laryssa brilharam ao vê-lo e um enorme e sincero sorriso se abriu, em seu
semblante.
— Olá Cela… Oi, Laryssa — ele falou sem retirar o olhar de
Marcela e com um grande sorriso.
— Oi! — Marcela o cumprimentou com um gesto seco.
— Olá Erick. — Laryssa o respondeu amorosamente.
— Vocês querem companhia até em casa, Marcela? — o rapaz de
ofereceu.
— Não! — ela o respondeu. — Não estou indo para casa, mas acompanhe
a Lally, ela vai adorar a sua companhia. — ela concluiu com um leve
tom de ironia.
— Com certeza… É muito ruim ir sozinha para casa, ainda mais com essas
ruas meio perigosas. — Laryssa falou.
Erick murmurou e olhou para ela com um sorriso amarelo. — Óbvio que não
te deixarei ir sozinha. — falou com falsa animação.
— Ótimo! — Marcela vibrou e Laryssa sorriu. — Já estava com medo da
minha amiga ir sozinha para casa, mas com você ao lado, saberei que ela está
segura. — Marcela concluiu.
— E eu irei amar a companhia. — Laryssa acrescentou.
— Idem. — ele falou olhando nos olhos dela.
— Então, o que estão esperando? Vão! — Marcela falou demonstrando
bastante animação.
— Não podemos te deixar sozinha aqui. — Erick falou.
— Claro que podem, estou no portão da escola, onde há total segurança e
meu pai já deve estar chegando.
— Então vamos, Erick, a cela está muito bem assistida.
— Laryssa falou sorridente.
— Tchauzinho… E cuidado com a rua.
Os dois começaram a caminhar em direção à casa de Laryssa e durante o
percurso, ela puxou assunto com ele. Conversaram sobre o balé, sobre o colégio
e gradualmente ele foi cedendo e ambos pareciam bem íntimos. Assim que chagaram
ao portão do prédio em que ela morava, ela deu-lhe um beijo na bochecha e se
despediu.
— Muito obrigada!
— Não foi nada… — Ele disse um pouco sem graça. — Pode me dar seu
número? — ele pediu.
— Com certeza. — ela falou sorridente.
Sem perder tempo, Laryssa abriu a mochila, retirou uma folha do seu
fichário e com calma a anotou o número do seu celular. Ele pegou o papel, o
dobrou carinhosamente e o guardou no bolso.
— Até amanhã! — ele falou.
— Até amanhã! — ela retribuiu.
Ele caminhou até ela e suavemente tentou beijá-la, mas em um gesto de
fingir resistência ela virou o rosto. Erick virou o rosto dela sutilmente e a
beijou calmamente, um beijo calmo, mas curto. Ele se afastou dela e, ela
calmamente abriu os olhos e depois um belo sorriso.
Laryssa entrou no prédio, subiu as escadas e da portaria o viu caminhar
pelo caminho de volta ao colégio e ir embora sem olhar para trás.
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