Do Que Vale Amar?

Capítulo Três: Fim de jogo




Começou a grande final do jogo de queimada. A posse da bola era de Vincenzo, porém mais uma vez como ato de “cavalheirismo”, ele cedeu a bola à Marcela, deixando-a iniciar a partida novamente. Ela a pegou com um sorriso, mas estava morrendo de ódio por dentro, segurou-a com força e a atirou nele. Conforme ela atirou, a bola acabou quebrando uma unha e indo parar muito longe do alvo. 

— O que foi gatinha, quebrou a unha? — Vincenzo falou debochando da situação, ele estava se divertindo com tudo.

Marcela não o respondeu, mas o fitou com ódio e sorriu sarcasticamente.

Ele não se importou para o modo que ela o olhara. Foi até o canto da quadra, onde a bola havia parado, pegou e a mirou nela. A quadra toda estava em silêncio e do lado de fora, havia dezenas de alunos, de vários anos, prestando atenção no jogo. Vincenzo a levou para trás da cabeça e a jogou com força para o outro lado da quadra, passando bem longe da adversária. Todos perceberam que foi intencional, inclusive Marcela, mas ela fez questão de devolver o comentário que o colega havia realizado instantes antes: 

— Gatinho, o que foi? Perdeu a mira? — perguntou ironicamente com um sorriso largo no rosto.   

Vincenzo não a respondeu, mas mordeu o lábio e riu com um sorriso bem cafajeste. Marcela foi até a bola, pegou-a, mirou bem no rosto dele e a atirou com bastante força. Ele a segurou muito próximo ao seu rosto. Daquele jeito, ele estava ganhando o jogo, mas antes que a professora apitasse e lhe desse a vitória, ele a deixou cair propositadamente, dando-lhe a vitória. Todos olharam aquela cena sem reação, ninguém havia entendido o que acabara de acontecer e até mesmo Marcela o olhava espantada. 

No entanto, Vincenzo caminhou até o centro da quadra.

— Meu nome é Vincenzo e eu tenho dezesseis anos. — disse o garoto se apresentando.

A professora conseguiu entender o que acabara de acontecer, então desceu da arquibancada, deu a vitória à Marcela, colocou uma medalha de prata em Vincenzo, chamou Laryssa e nela pôs uma medalha de bronze. Depois chamou Marcela até o centro da quadra, colocou no pescoço dela a medalha de ouro, perguntou o seu nome e a idade (porque, os professores do ensino médio, naquele colégio, não davam aula ao fundamental II e vice-versa), após isso, levantou o braço esquerdo da menina e disse:

— Esta é Marcela, ela tem catorze anos e é a campeã do queimado da turma 1A!

Todos a olharam e a aplaudiram, inclusive Vincenzo que tinha no rosto um enorme sorriso de felicidade. Ele havia sido derrotado, mas estava feliz.  Essa era uma das boas qualidades dele, pois sabia a hora que havia sido derrotado e sabia aceitar a derrota. A equipe de Marcela vibrava. Mesmo somente tendo ganhado a medalha, a equipe inteira se sentia vencedora. Vincenzo foi até Marcela e a cumprimentou pela vitória:

 — Parabéns, gatinha! — falou estendendo a mão, cumprimentando-a. 

Marcela apertou a mão dele e respondeu. — Obrigada!

Ela pegou suas coisas e foi para o vestiário, onde poderia tomar banho e trocar a roupa suada.

Vincenzo também decidiu tomar banho para retirar o suor e poder trocar de roupa. Após o banho, enquanto trocava de roupa, Erick foi até ele para conversar sobre o jogo:

— O que foi aquilo na quadra?

— Não sei do que você está falando…  — Vincenzo respondeu confuso.

— Estou falando de você ter dado à vitória a Marcela.

— Não dei vitória a ninguém! Ela ganhou por mérito próprio. — disse Vincenzo sorrindo. — E não sei do que você está reclamando, seu time venceu! — falou um pouco confuso.

— Não estou reclamando, só não quero você perto da celinha ou… — ameaçou Erick.

— Ou? — Vincenzo perguntou confuso. — Acha que tenho medo de você? Se manca! Pelo acaso ela é a sua namorada? 

— Não, é somente minha amiga. Mas, se mexer com ela, irá se ver comigo

Vincenzo riu. 

— Acha que estou blefando? — Erick falou irritado. 

— Acha que tenho medo de você? — Vincenzo retrucou. — Olha aqui, é bom você ficar na sua e não se meter no meu caminho…

Vincenzo o empurrou e saiu caminhando calmamente pelo vestiário que, logo ficou lotado de garotos para assistir à discussão dos dois rapazes. O jovem voltou para a quadra, pegou a mochila que havia ficado na arquibancada e notou que ela parecia estar mexida. No mesmo instante, ele a vasculhou para saber se estava faltando algo, mas não sentiu a falta de nenhum objeto, guardou tudo de volta e foi até a diretoria pegar uma declaração para levar ao seu pai.

 

●●●

 

Ambas, Laryssa e Marcela, saíram do vestiário e caminharam até o portão da escola, onde Marcela esperava pelo pai que iria buscá-la. As duas conversavam intimamente, porém no instante que Erick se aproximou, elas cortaram o assunto. Marcela o olhou e sorriu forçadamente, enquanto os olhos de Laryssa brilharam ao vê-lo e um enorme e sincero sorriso se abriu, em seu semblante. 

— Olá Cela… Oi, Laryssa — ele falou sem retirar o olhar de Marcela e com um grande sorriso. 

— Oi! — Marcela o cumprimentou com um gesto seco. 

— Olá Erick. — Laryssa o respondeu amorosamente. 

— Vocês querem companhia até em casa, Marcela? — o rapaz de ofereceu. 

— Não! — ela o respondeu. — Não estou indo para casa, mas acompanhe a Lally, ela vai adorar a sua companhia. — ela concluiu com um leve tom de ironia. 

— Com certeza… É muito ruim ir sozinha para casa, ainda mais com essas ruas meio perigosas. — Laryssa falou. 

Erick murmurou e olhou para ela com um sorriso amarelo. — Óbvio que não te deixarei ir sozinha. — falou com falsa animação. 

— Ótimo! — Marcela vibrou e Laryssa sorriu. — Já estava com medo da minha amiga ir sozinha para casa, mas com você ao lado, saberei que ela está segura. — Marcela concluiu.

— E eu irei amar a companhia. — Laryssa acrescentou. 

Idem. — ele falou olhando nos olhos dela. 

— Então, o que estão esperando? Vão! — Marcela falou demonstrando bastante animação. 

— Não podemos te deixar sozinha aqui. — Erick falou. 

— Claro que podem, estou no portão da escola, onde há total segurança e meu pai já deve estar chegando. 

— Então vamos, Erick, a cela está muito bem assistida. — Laryssa falou sorridente. 

— Tchauzinho… E cuidado com a rua. 

Os dois começaram a caminhar em direção à casa de Laryssa e durante o percurso, ela puxou assunto com ele. Conversaram sobre o balé, sobre o colégio e gradualmente ele foi cedendo e ambos pareciam bem íntimos. Assim que chagaram ao portão do prédio em que ela morava, ela deu-lhe um beijo na bochecha e se despediu. 

— Muito obrigada! 

— Não foi nada… — Ele disse um pouco sem graça. — Pode me dar seu número? — ele pediu.

— Com certeza. — ela falou sorridente. 

Sem perder tempo, Laryssa abriu a mochila, retirou uma folha do seu fichário e com calma a anotou o número do seu celular. Ele pegou o papel, o dobrou carinhosamente e o guardou no bolso. 

— Até amanhã! — ele falou. 

— Até amanhã! — ela retribuiu. 

Ele caminhou até ela e suavemente tentou beijá-la, mas em um gesto de fingir resistência ela virou o rosto. Erick virou o rosto dela sutilmente e a beijou calmamente, um beijo calmo, mas curto. Ele se afastou dela e, ela calmamente abriu os olhos e depois um belo sorriso. 

Laryssa entrou no prédio, subiu as escadas e da portaria o viu caminhar pelo caminho de volta ao colégio e ir embora sem olhar para trás.




Comentários